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A política subiu no telhado

À semelhança da anedota que trata da carta de falecimento do gato, o terremoto político que assolou o Brasil e colocou Dilma, Lula, o PT e seu projeto de poder em polvorosa, a política tradicional subiu no telhado. Não foi o governo Dilma, em absoluto. Ele já está encerrado. Permanece como um cadáver insepulto. Também não foi Lula, cuja história foi para o ralo juntamente com suas perspectivas “sócio-históricas” de reconstruir a história brasileira a partir do seu ofício virtual – bem diferente do chão-de-fábrica real, onde estão os verdadeiros trabalhadores.


A guinada à direita de setores importantes da sociedade, em particular da classe média, está longe de ser uma má notícia. Para deter a avalanche esquerdista que estava levando o país à bancarrota econômica e à indigência moral, esse movimento é crucial. Não significa bater-se pelo oposto da agenda socialista, nem refundar o Integralismo. 

Significa apenas não mais se sujeitar à ditadura do pensamento único, da quota obrigatória, do nivelamento por baixo, da generalização de ideias muito particulares de ‘democracia’ e ‘participação popular’.

Todavia esse não é um privilégio brasileiro. A percepção da derrocada das propostas ‘de esquerda’ é um fenômeno planetário. E não traz consigo apenas a falência das propostas dos partidos trabalhistas e socialistas – embora no Brasil a designação oficial das agremiações tenha ainda menos relevância do que seus Estatutos. O corolário desse processo é o fastio público com a política tradicional e o abandono progressivo do modelo de organização política. A tripartição do Estado sai incólume. Mas a sua composição será irremediavelmente alterada.

É muito bom que um sistema que permitiu a hegemonia do pensamento socialista seja revisto. É essencial que seja sucedido por outras formas de agir e pensar politicamente. Manietado pelas algemas da perspectiva unitária, adensado pelo discurso limítrofe da “causa”, o sistema político brasileiro acabou refém de uma vasta rede de compadrio, adequação forçada e submissão. Ingredientes mais do que suficientes para fazer eclodir organizações criminosas, associações canalhas e fortunas inexplicáveis.

Diante do atual cardápio de siglas sem sentido e agrupamentos sem liga, o brasileiro cidadão, eleitor ou agente político, se desencanta. Não vê diferenças entre as siglas, e percebe que o desejo de alcançar o poder só não é maior do que o esforço para impedir que os adversários o façam. Evidente que esse é o jogo da política. Mas desde que haja partidos dignos desse nome e fundamentados em programas. Onde estão hoje? As tentativas de reacender o velho fogo são apenas brasa miúda de vapor encardido. E as velhas raposas usam a mesma pelagem, com tons diversos, para fazer o mesmo roteiro até o galinheiro de sempre.

Um fim é sempre, obrigatoriamente, um começo. Se estamos testemunhando, junto com o exorcismo das práticas heterodoxas de acumulação de recursos do lulopetismo, também a queda do cenário empobrecido da política tradicional, também vemos, ainda nascente, um novo modelo. Não é de agora, não é desta semana nem deste semestre, mas o fastio com a política tradicional, a irrelevância das siglas e dos partidos em si (além do padrão método-campanha-partilha) acarreta a formação de grupos antipolíticos. Que, a despeito do nome, são essencialmente políticos, mas dissociados do trabalhismo, da social-democracia e do socialismo. Esse fenômeno alcançou patamares elevados em diversos cenários, mas ainda é incipiente no Brasil. E não se coaduna com os postulados, por exemplo, de agremiações como a Rede e o Solidariedade, que se propunham ser diferentes mas sucumbiram à confortável assimilação a todos os demais.

O Brasil que emergirá da crise, livre de muitos de seus medos – ultrapassados pela Justiça ou batidos pelo voto – não será apenas politicamente mais aberto e maduro. Será também muito mais acessível a todos aqueles que recusam a tutela de donos, cardeais ou donatários de siglas partidárias. Em todas as esferas.