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Cruzadas: uma revanche

Um caminhão entra pela Promenade des Anglais, na cidade de Nice, à beira do Mediterrâneo, às 22h30 de quinta-feira, 14 de julho. Policiais tentam contê-lo, sem sucesso. O motorista desvia de um motociclista que tenta deter sua marcha, segue mais alguns metros e então acelera. Pela frente, uma multidão comemora o Dia da Bastilha, o mais importante do calendário oficial francês. Depois de cerca de 900 metros que assombraram o mundo, Mohamed Lahouaiej Bouhel, de origem tunisiana, atropela dezenas de pessoas, dirigindo um caminhão branco. Na hora, foram perto de 80 mortos. Mais de cinco dezenas estão entre a vida e a morte nos hospitais franceses. Ainda não há, enquanto escrevo, pistas sobre a motivação do terrorista. Ninguém assumiu a autoria do atentado, mas vários sites ligados ao nefasto Estado Islâmico celebraram, já na manhã desta sexta-feira (hora do Brasil) o ataque contra os cidadãos franceses. Bouhel foi morto a tiros pela polícia. Infelizmente, quinze minutos depois do necessário.

A pergunta mais simples é a de resposta mais difícil: por quê? O que leva um indivíduo a usar um caminhão para esmagar corpos de seus semelhantes durante uma festa nacional, sem poupar crianças, mulheres, idosos ou estrangeiros? O que leva uma pessoa a intencionalmente causar dor, sofrimento e a extinção de dezenas de outras? O que leva alguém a abandonar o mais básico dos instintos relacionais – não fazer ao outro aquilo que tenho medo que faça contra mim – e matar, sabendo que provavelmente será também morto?

As mortes por atacado em solo francês, trazendo a marca da intolerância religiosa e do expansionismo muçulmano (radical, sectário, antiquado, restrito, você escolha o complemento) se traduzem em algo mais do que manchetes e tragédias comentadas à exaustão. Essas mortes alimentam o medo que franceses, ingleses, americanos, baianos e cariocas têm – e devem ter mesmo – de sofrer destino igual. Não estamos lidando com pessoas razoáveis. Não estamos tratando de objetivos táticos. Estamos tratando de algo bem maior.

A resposta a essas agressões gratuitas não pode ser, como preferem muitos doutrinados, gestos de diálogo, paciência e flores. E velas, para lembrar os mortos. Pode ser gestões políticas, esforços diplomáticos e pressão. Acredito, no entanto, que a melhor resposta venha a ser mesmo a neutralização de todos os terroristas e seus financiadores. Simples assim. Querem nos eliminar e vão fazer isso se puderem? Então que sejam eliminados antes. Não estamos ocupando espaços, protegendo recursos do subsolo ou extirpando tiranos do poder. Estamos apenas nos defendendo. Se todos os meios são válidos para a agressão, são moralmente válidos também para a reação de defesa. Esperamos o quê? Que nossas mensagens de tristeza e solidariedade deprimam os terroristas e que eles fiquem com pena de nossa miséria, desistindo de seu intento? Isso me parece uma bobagem inominável, que contraria não só a lógica da vida como a própria racionalidade, que o ocidente usa com tanto destemor contra o fanatismo oriental.

Qualquer aluno que tenha estudado História com alguma atenção sabe que as Cruzadas foram tentativas de governos cristãos-ocidentais de conquistar e manter sob seu controle as cidades que compõem o que chamavam de Terra Santa. Qualquer leitor atento sabe que todas as Cruzadas foram derrotadas. Algumas imediatamente, outras após alguns anos de aparente sucesso. A coisa parou quando os financiadores dessas guerras “santas” cansaram de perder dinheiro com isso. E os contribuintes se recusaram a custear tais aventuras. Que serviram para matanças indizíveis e sofrimentos incalculáveis, de parte a parte.

Hoje os propagadores da jihad sem-fronteiras parecem ter a mesma sede: invadir, ocupar, dominar. Matando se preciso for. E sempre é. O que poderia ser visto como uma revanche histórica das Cruzadas é de fato um movimento contra o Ocidente.

Quem perdeu no 14 de Julho não foi a cidade de Nice, as famílias das vítimas ou o tolerante estilo de vida francês. Quem perdeu fomos nós: eu, você e a humanidade.