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Jogos do Rio, terror em Natal

(Foto: Roberto Castro/ ME/ Brasil2016) - Jogos do Rio, terror em Natal
(Foto: Roberto Castro/ ME/ Brasil2016)

Certamente não fui o único a lembrar que a realização dos Jogos Olímpicos no Brasil é um momento histórico e que até mesmo a passagem da tocha pelas nossas cidades é um marco único. No entanto, não é possível imaginar que essa circunstância específica vá transformar o país em algo muito melhor do que vem sendo.

Continuamos sendo campeões mundiais na preguiça, na leniência, e na folclorização. Vou ser mais claro. Bandidos presos mandam que bandidos soltos promovam o terror na capital do Rio Grande do Norte como represália por terem sido instalados bloqueadores de celular no principal presídio daquele Estado. Ônibus são incendiados, escolas são fechadas, carros são atacados e a cidade se encontra, para todos os efeitos, “sitiada”. A Força Nacional de Segurança foi despachada para lá, para dar conta de devolver um pouco de paz à população. Mas algo está tremendamente errado. As ações e principalmente as reações à onda de terror contra a população são muito claras. Em primeiro lugar, a absoluta ineficiência do sistema prisional. Primeiro, por ser permeável: assim como celulares entram nos presídios, drogas e armas também podem entrar. Depois, por ser inepto: os bandidos presos estão sendo punidos, não estão sendo só agrupados. Sua rotina deve ser a de uma prisão, não de um refúgio para planejamento e orquestração de mais crimes. Fiscalização ineficiente, vigilância tosca. Menos mal que se pensa em utilizar a tecnologia para pelo menos inibir os contatos por celular, mas ainda é pouco. A seguir, temos outra questão, o predomínio. No Rio Grande do Norte, os últimos dias não têm sido ditados pelo regime geral dos cidadãos, mas sim pelo domínio dos bandidos. O Estado cedeu vez à bandidagem. São os bandidos que decidiram quantos e quais ônibus seriam liberados, quantos queimados, quem passaria e quem não. O império do crime estava vencendo da Lei de lavada, por lá. Desarmada e sem a mínima confiança em seus policiais (se a polícia fosse eficiente os ataques seriam contidos na primeira hora, e talvez mesmo evitados) a população civil obedece à lógica do medo: refugia-se em casa, escapa da linha de tiro. Nem mesmo a mobilização policial e a atenção do país inteiro foram suficientes para que as forças da ordem retomassem o controle. Foi preciso apelar para a Força Nacional. Tem algo de muito errado naquele pedaço de Brasil. E não é pecado imaginar que tem algo de muito errado nos outros pedaços também.

Na sede olímpica, além do fetiche de muitos jornalistas e jornais pelo escabroso, mesmo que seja a memória do solo, a falta de explicações convincentes e desculpas públicas pelo vexame internacional da Vila Olímpica são tomados como exemplos da bonomia típica do brasileiro. Acredito que isso é uma estupidez. Não somos assim. Não tornamos piada o que é errado, não consideramos – não todos, pelo menos – que o Brasil “é isso aí, mesmo” e que não se deve lamentar demais, ou buscar a punição dos culpados. Quando nos resignarmos à falta de resultado, à impontualidade, ao descaramento, à desculpa estúpida, à cara-de-pau, ao mau-caratismo e ao ‘jeitinho’, estaremos definitivamente assumindo nossa função subdesenvolvida. Já nos basta a vergonha das águas poluídas não por indústrias, mas por esgoto doméstico e lixo jogado nos rios e no mar por pura preguiça e falta de educação. Temos também que nos submeter ao vexame de sequer propiciar condições mínimas de alojamento para atletas de elevado gabarito.

Mais da metade do horário reservado aos telejornais das TVs abertas está focado nas Olimpíadas e nos seus desdobramentos. Parece que entramos num intervalo nacional, num hiato histórico, num “feriado cívico”, em que os problemas ficam menos importantes do que a aventura olímpica dos cariocas, em parte também de todos nós. Aliás, até o momento o “espírito nacional” é todo em favor da idéia de que as Olimpíadas são de todo o Brasil, e não da cidade-sede. Somos tão carentes de protagonismo que acreditamos mesmo que essas serão as olimpíadas “brasileiras”, o que é um engano terrível. Serão apenas os Jogos do Rio. Ocorridos no Rio, atendendo (e vendendo) o Rio e consagrando o Rio. Só. As medalhas serão disputadas por atletas do time brasileiro, sim. Mas seria o mesmo se fosse em Washington, Calcutá ou Caracas.

 A parte do Brasil que não tem feriado, ponto facultativo, folga ou lucro à vista com os Jogos Olímpicos enfrenta os mesmos problemas de todo dia. Com a possível exceção do Rio Grande do Norte, que enfrenta uma sublevação horrenda, vista até agora com inacreditável preguiça e comodismo por quase todos os demais brasileiros. Aquilo sim é um escândalo. Aquilo sim é a condenação do Brasil como Estado, da nossa sociedade como livre e produtiva. Mas para uma parte imensa dos brasileiros, isso não faz diferença. Nem sabem direito onde é que fica o Rio Grande do Norte.