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Nem é hipótese, é ameaça

A ideia insana de rasgar a Constituição, atropelar o calendário eleitoral e subjugar o Congresso é ilegítima, antidemocrática e golpista. A defesa de eleições antecipadas é, exatamente isso, um golpe. E, portanto, é ilegítimo e antidemocrático. Quem o defende deve ser extirpado da vida pública. Senadores da República, não importa de que signo, partido, religião ou preferência alimentar que estão defendendo essa excrescência são o perfeito exemplo da matriz golpista nativa. Parece que não lhes resta qualquer alternativa de consciência: é preciso ganhar, mesmo perdendo. É preciso insurgir-se contra o efeito prático da vontade popular, expressa por meio de seus representantes, propondo uma suposta via ‘eleitoral’. Tolice. A proposta soa bonitinha: Dilma aceitaria encurtar seu mandato e haveria convocação de eleições gerais imediatamente. De bonitinho só tem um a descrição. Dilma terá seu mandato encerrado antes da hora, por culpa dela mesma e de suas decisões incorretas e contrárias à lei. Nem chego a supor que isso se deve à sua falta de habilidade gerencial, política, administrativa ou à sua fala peculiar, espelho de um pensamento miúdo, tosco, alquebrado.

A proposta de eleições presidenciais, agora, é pior ainda do que a de se absolver Dilma e todos os supliciados petistas & afins, pilhados e já indiciados por seus malfeitos. Não há justificativa: a lei não prevê, a Constituição não permite e a sociedade não quer. Ou seja, é golpe. E sujo. Dilma não está sendo enxotada porque pertence ao PT. Temer não vai assumir porque é do PMDB, ou porque Eduardo Cunha gosta dele. Dilma vai ser apeada do cargo porque violou a lei; Temer vai assumir porque é o substituto legal. Pronto. Todo o resto é esculhambação.

É constrangedor ouvir que a hipótese “nem Dilma, nem Temer” ganha adeptos. Principalmente porque não é uma hipótese, é uma ameaça. Uma ameaça à normalidade democrática, à estabilidade da República e à Constituição Federal. Simples assim. Quem não quer Dilma nem Temer vai esperar as eleições de 2018 e escolher outro candidato. Quem não quer Dilma agora faz como 70% da Câmara Federal: admite o processo de impeachment. O coro da eleição antecipada ecoa o golpismo de sarjeta que, este sim, ainda procura por explicações diante da falência do ‘projeto Dilma’, bem como da derrocada de todas as demais opções.

Não me importa quem venceria uma eleição, se eleição houvesse hoje. Me importa que a lei, a constituição e a República não preveem nem admitem eleição hoje, fora do calendário e motivada por incongruências políticas ou interesses partidários. Se o virtual eleito seria uma pessoa em quem eu votei em 2014 ou não é irrelevante. Perder é uma parte do processo político. Espernear também. Mas golpe não. E isso é golpe.

• Até quando a Advocacia-Geral da União será apenas Advocacia-Geral da Dilma?

• Por que raios a Procuradoria da República e a Advocacia da União aparecem, em tantas situações, como campos opostos?