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Nunca vai funcionar

Por que a falência da experiência ‘socialista’ no Brasil incomoda tanto? Poucas respostas são tão evidentes: a quebra do Estado, como resultado de uma política voltada para a divisão do lucro, sem a contrapartida do trabalho, é uma dolorida verdade para a esquerda. Quem acreditaria que a velha súcia de defensores da moral proletária era, na verdade, a mais estrepitosa burguesia delirante, ávida por enriquecer à custa do outro – qualquer outro – e permanecer enriquecendo? Quem é que, depois de uma década e meia de doutrinação poderia imaginar que a visão parasitária de ‘responsabilidade social’ pregada pelos seus líderes, era apenas uma vergonhosa trama para esconder a mais asquerosa rapinagem? Quase ninguém. E é isso que incomoda. O sonho da sociedade com muito menos miseráveis se transformou no pesadelo de um país com uma imensidão de pobres e cada vez menos remediados. E isso SEM ter reduzido o número dos miseráveis, apenas lhes dando salvo-conduto para um passeio de alguns pares de meses no mundo dos que estão um patamar acima.

A praga da rapinagem organizada, que controla setores importantes do Estado e que vai ser varrida não tanto pela Lava-jato quanto pela indignação coletiva, deixa teimosas viúvas. Sonhadores que imaginavam a redenção dos pobres na ascensão do ex-operário, que esperavam a vingança da Verdade com a vitória da ex-guerrilheira, viram que se tratava apenas de outra miragem. Não sobra um só nas fileiras da esquerda fanática que não se sinta envergonhado pela desavergonhada ação de supostos líderes. São, então, como viúvas de um sonho, outra vez. Uma parcela pequena ainda se lembra de como foi horrível ter enviuvado do ‘paraíso socialista’ de Stálin, quando Kruschev denunciou sua política imbecil, tirânica e assassina. Talvez tenha sido a viuvez inicial, que deveria ter ensinado a essa malta que o caminho não era esse. Não serviu. Como também não serviu a decadência de todo o bloco, simbolizada pela queda do Muro de Berlim. Enviuvaram de novo. Mas não aprenderem. Continuaram aplaudindo a tirania dos Castro, em Cuba, e as soluções de mercado do PC chinês. E tinham a esperança de que haveria, neste país bronzeado, um “socialismo moreno”, como definiu Leonel Brizola, uma nova oportunidade de testar a sua adorada ideologia. Não funcionou. E não foi só porque bandoleiros tomaram o poder e saquearam o que puderam. E certamente saquearam muito mais do que nos foi dado a conhecer, até agora. Não funcionou por outra razão, também fácil de explicar mas dificílima de entender – para essas viúvas: isso não funciona. Em lugar nenhum. De jeito nenhum. É uma utopia. Não vai rolar. Está morto. E cheirando mal. Nivelar por baixo, impedir a crítica, dominar o mercado e açambarcar a meritocracia não dá resultado. Demolir o Estado distribuindo benefícios coletivos sem qualquer contrapartida também não é eficaz contra nada. Excerto, talvez, a ética do trabalho...

Contrariados pelos fatos, os viúvos e viúvas da utopia socialista preferem ignorar o mau cheiro das próprias idéias para criticar o nem sempre agradável perfume do capitalismo. Na realidade, não choram só pela prisão dos bandoleiros que foram pegos em negócios criminosos, pilhagem e roubalheira sistemática. Choram pela obrigação de negar a morte de sua ilusão mais próxima, de seu mais doce sonho de “igualdade”.

Mas choram em vão. Discursos não superam fatos, e fanatismo não supera realidade. Não funcionou antes, não funciona agora, não vai funcionar nunca. E essa certeza, também a eles cristalina e evidente, é o que dói mais: vidas, carreiras e projetos, todos construídos numa base impossível.