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O argumento que falta

Na cartilha de todo apoiador de Lula, Dilma ou da ‘esquerda’ em geral, o último recurso é quase sempre o apelo à ignorância. Naturalmente, à ignorância de seu oponente. Os passos para se chegar a esse apelo são conhecidos: começa pela ofensa pura e simples (Elite! Coxinha! Direitona!), segue para a intimidação (Não nos entregaremos! A Justiça vai se fazer ouvir! Vou te processar!) e alcança o limite da sanidade ao sugerir o mimetismo (Todo mundo faz! O PT não inventou a corrupção, ou o caixa 2, ou tudo isso e mais um pouco!). Ao final, sem qualquer possibilidade de superar a verdade, e sem argumentos, é sacado o bordão final: “vá estudar história”.

Pois é. A sugestão/recriminação indica claramente, para tamanha miopia, que o estudo da História é a garantia final da absolvição do seu modelo de política, governo e ação pública. Indica, pelo menos para quem segue essa cartilha, que todo mundo que está em qualquer outro grupo que não o que lhe dá apoio, é ignorante. Assim, o apelo à ignorância se transforma na varinha mágica: assim que você aprender história, verá que estamos certos e o resto do mundo está errado! Como quase tudo que a esquerda deste país produziu, isso também é estúpido.

Invocar a ignorância do oponente não é nem estrategicamente interessante nem taticamente válido: apenas revela que esse lado do debate não tem outro argumento e que, desde o início, se submeteu a um oponente que não tinha credenciais mínimas para ser nem isso! Na realidade, só comprova a ignorância de quem faz o apelo. O que, convenhamos, não surpreende aos que pensam sem medo.

A transformação das redes sociais em púlpitos “democráticos” permitiu a explosão de opiniões. Muitas sem base, a maioria dirigida. E daí? Daí nada. Todos têm o mesmo direito de expor suas opiniões e razões, ainda que aquelas sejam toscas e estas, indefensáveis. Ocorre que na falta de condições de pensar sozinhos, muitos dos que insistem em expor suas opiniões publicamente usam como âncora a consciência alheia, a informação de orelhada e o volume de outras opiniões igualmente rasas. Mas com agressividade crescente, levando de fato a questão toda para um Fla x Flu virtual de difícil contenção e ainda mais rara lógica.

Em quem confiar? Nos intelectuais, cuja missão é justamente a de permitir-se pensar além, mas estão – salvo honradas exceções - comprometidos até a medula com o lado mais bizarro do alinhamento, o pensamento único? Nos líderes políticos, sem exceção ocupando lados bem claros e tendo como objetivo projetos de poder imediato? Na academia, agora sufocada pela emergência da truculência intelectual da esquerda e manietada pelo risco da perda de suas prebendas?

Na falta de líderes civis, restam arrivistas, fabricantes de frases e supostos ideólogos. Salvam-se os que de fato fizeram e fazem aquilo que a esquerda insiste sem nunca ter feito, aprender com a História.

Não estou entre os deslumbrados pela visita de Obama a Cuba. A ditadura imoral dos irmãos Castro continua, as violações aos Direitos Humanos permanecem, assim como a miséria de um povo escravizado. Também não me basta o argumento estúpido de que o embargo norte-americano é o culpado de tudo. Cuba não deixou de crescer por causa do embargo. Cuba ficou miserável porque não tem dinheiro para atender às necessidades de seu povo. Se não pode fazer trocas comerciais com os Estados Unidos, pode fazê-las com centenas de outros países, o Brasil inclusive. Não faz isso porque não tem dinheiro, não porque os Estados Unidos não deixam.

O PMDB desembarca do governo, esta semana? Isso é bom ou ruim para o país? Neste momento, qualquer passo que acelere a queda de Dilma Rousseff é positivo. A construção de um Brasil decente vai passar, lá adiante, pela depuração do sistema político e dos partidos, esse aí em particular. Mas cada coisa a seu tempo.