22°
Máx
16°
Min

O direito de morrer

Militantes de várias facções, cores e tipos se mobilizam pelo direito de nascer, pelo direito de matar e pelo direito de não ser morto. Não vi nenhum, até agora, trabalhando para acabar com o direito de morrer. E nem estou me referindo à abreviação da vida, ao suicídio ou ao auto-sacrifício, ritual ou não. Estou falando daqueles que nos impõe seu direito de morrer aos poucos, cotidianamente, visivelmente.

A onda de frio que inaugurou o outono no Sul e no Sudoeste serviu para mobilizar bons corações, compungidos pela imagem dolorosa e vexaminosa de pessoas – na realidade gente igualzinho a você e a mim – se escondendo do frio em caixas de papelão, cobertores ralos e marquises sombrias. “Por que ninguém faz nada?” grita a consciência de alguns. “Como vamos ajuda-los?” berram os mais práticos. Ora, a providência ideal, efetiva e saneadora seria a mais simples e óbvia: retirar essas pessoas da chamada “situação de rua”. Quem está na rua tem, por certo, muito mais chances de sofrer os efeitos do frio do que aqueles que estão abrigados, não é? Sim, a resposta é sim. Sem “mas” nem “veja bem”. Corte rápido.

Cena 2: em São Paulo, Ponta Grossa, Curitiba ou qualquer cidade média ou grande, há uma área em que viciados consomem grandes quantidades de entorpecentes sem que ninguém lhes dê a mínima. Ali há violência, desrespeito, sofrimento auto-imposto e, o que só não é pior do que a hipocrisia politicamente correta, suicídio lento. Todos sabem disso. Sabe-se, e não é de hoje, que o consumo regular e crescente de algumas drogas leva a problemas de saúde física e mental graves, alguns potencialmente fatais. O que se faz? Virtualmente nada. As ‘cracolândias’ espalham-se como se fossem ervas daninhas. Esfregam na nossa cara espantada, assim, e outra vez, seu direito de morrer em paz.

O que se faz para combater isso? Pouco ou quase nada. Eventualmente os ‘viventes’ dessas áreas consentidas e aceitas pelo poder público e pela sociedade são visitados por agentes de saúde, banhados, alimentados, vestidos e deixados para que voltem para onde bem entenderem. Tudo em nome, claro, do livre-arbítrio e do direito de morrer, uma espécie de corolário aos princípios básicos da nossa Constituição e, enfim, do nosso contrato social.

Se faz o mesmo com os desabrigados, sem-teto e moradores de rua. Primeiro se permite que vivam onde quiserem. Afinal, a rua é pública e como tal não pode ser interditada nem para trânsito nem para sono. Ocasionalmente, são convencidos a ir para abrigos, onde passam uma ou duas noites, tomam banho, recebem alimento e, às vezes, atenção médica. Depois são novamente liberados para fazer o que bem entendem – inclusive e majoritariamente, voltar para a rua.

Nossa Constituição não dá a ninguém o direito de morrer. Nossas leis não preveem facilidades para quem se suicida – rapidamente ou aos poucos. Não há cobertura legal, muito menos moral, para essa atitude estúpida que se adota diante dessa situação supostamente imutável: olhar para o outro lado. Por certo que a fraternidade não é princípio constitucional. Também por certo que consciência não é um imperativo de nosso contrato social. Mas a preservação da vida, mesmo diante da vontade (consciente ou não) da pessoa é sim, um direito e um dever. Tem sido mais simples olhar para o outro lado e construir todo um discurso de respeito à “vontade soberana” do sujeito que prefere fumar crack até morrer, ou se deixar congelar até o final desta semana. Pois eu acho isso uma estupidez. Se defendemos a vida, temos que defende-la inclusive daquilo que parece ser a conveniência de alguns. E que não passa de outra forma horrível de suicídio. Assistido e admitido por todos.