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Os valores de Aliel

Foi o próprio deputado Aliel Machado que trouxe a questão ‘preço’ para a discussão. Aos gritos, ele disse para o Brasil inteiro que pagaria “o preço” por sua decisão, votando contra o relatório que recomenda o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Bem, dito isso, vamos ao que interessa. Quem se surpreendeu com a postura de Aliel? Pessoalmente, acredito que ele foi extremamente coerente. Nunca mentiu dizendo que havia abandonado sua ideologia, nem que se posicionaria contra a esquerda mais basista, da qual fez parte durante tanto tempo. O que o Brasil inteiro viu – tanto na segunda-feira quanto na terça pela manhã, no jornal “Bom Dia, Brasil”, da Globo – foi o deputado Aliel Machado sendo... Aliel Machado.

Ele não deixou de ser quem era apenas por ter mudado de filiação partidária. Seu coração continua sendo o que sempre foi. A mim, nunca houve qualquer mudança significativa, senão a busca de espaço partidário mais confortável do que o anacrônico PC do B, único partido do Brasil a apoiar, por exemplo, a bizarra ditadura de Kim Jong-Un, na Coréia do Norte. Aliel sabe disso? Nem desconfio. Mas sei que ele tem consciência de outras questões, muito mais próximas.

A que Aliel dá valor? Às manifestações feitas por redes sociais? Definitivamente, não. Pelo visto, também não dá muito valor às evidências políticas e jurídicas que apontam Dilma Rousseff, no entendimento meu e da imensa maioria dos brasileiros e até da comissão do Impeachment, como responsável direta por atos que a descredenciam para continuar exercendo o cargo.

Aliel é, sem dúvida, um homem leal. Mas a seus próprios amigos e princípios. Talvez, nem tanto a seu eleitorado de ocasião. Afinal, não acredito que haja em Ponta Grossa, seu principal reduto eleitoral, qualquer possibilidade de se encontrar 50 ou 60 mil pessoas que compactuam com o receituário político-ideológico do Partido Comunista do Brasil, pelo qual ele se elegeu. Votaram na aparência, elegeram a essência.

 Ex-comunista marinado, o deputado parecia seguir a diretriz da líder da Rede – Marina, claro – que primeiro queria tudo-ou-nada, exigindo oportunisticamente novas eleições agora, quando pontua as pesquisas. Depois, caiu em si e liberou seus seguidores para votar como quisessem. Ou como pudessem...

 Mas a questão é ainda mais séria. Para eleger-se, Aliel teve o apoio decisivo do PT. E não só. Em sua campanha – os dados estão disponíveis no site do TSE, como você pode conferir aqui e checar aqui - boa parte dos mais de R$ 570 mil que usou na campanha, de camaradas petistas & afins. Não entendo porque de essa descrição não ter sido avaliada como impactante no que viria a seguir. Mas vamos lá: Aliel recebeu no total perto de R$ 140 mil do comitê de Gleisi Hoffmann (PT). Recebeu mais R$ 100 mil repassados por seu partido e doados originalmente pelo frigorífico JBS (aquele, da Friboi, lembra?) e mais R$ 100 mil doados originalmente por uma petroleira, a HRT O&G.

O que isso significa? Ora, Aliel deve boa parte de sua campanha eleitoral vitoriosa (a maior parte da campanha) a um conjunto de ações e doações de gente estreitamente ligada ao governo Dilma. Pelo visto, ele considera essas ligações mais interessantes e válidas do que a opinião de seu eleitorado nativo. E, enfim, o que são 80.000 (votos) comparados a – por baixo – 477.000 (Reais) na campanha?

Mas, repito, não vejo incoerência na atitude de Aliel. Nem estou sugerindo que ele mudou de opinião por causa do financiamento de sua ascensão meteórica na política. Apenas indico dados suficientes para se avaliar a quem, efetivamente, ele presta contas. E agindo como agiu ele só está seguindo o caminho que vinha trilhando desde sempre. Não me surpreendo com a atitude ou o voto de Aliel. Ficaria muito surpreso se ele tivesse mudado de opinião, e desdenhado sua origem. Naturalmente, fiquei constrangido por ver que ele, como outros parlamentares, ainda não entendeu ou não aceita o fato de que Dilma é um empecilho à normalidade, ao desenvolvimento e à reconstrução nacional. Depois de ter contribuído – ela, o PT, seus líderes e afiliados, inclusive Aliel, Péricles e tantos outros – para que as coisas chegassem a esse ponto. Afinal, foram eles que deram o aval político a ela e que ajudaram a captar votos para a eleição da presidente, inclusive em Ponta Grossa. E conquistaram muito.

Porém, a quem Aliel ouviria agora? Aos palpiteiros do Facebook? Aos opositores de sempre ou aos aliados da vida inteira, como o deputado petista que o acompanhou em quase todas as conversas com vistas à coleta de apoios para as eleições de outubro?

Esperar coisa diferente de Aliel seria tolice. Como esperar humildade da senadora Gleisi ou gentileza do senador Requião