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Questão de caráter

Parece inegável que o fim da era petista, que já se anuncia como definitiva, é grande. As lojas fechadas, a crise gritante, as hordas de desempregados e os sofrimentos sem fim de quem perdeu até a esperança são provas suficientes. E não, isso não é uma articulação da CIA, do PSDB, do Aécio, do Sérgio Moro ou, sei lá, do Pato Donald.

Também me parece irrefutável que o próprio petismo, ao abusar da inteligência alheia, queria fazer crer que os anos de estabilidade monetária firmados nos dois períodos de governo de Fernando Henrique Cardoso haviam deixado uma “herança maldita”. Bom, qualquer um que tenha encontrado uma administração depois da passagem desastrosa de um governo petista sabe exatamente o que é ‘herança maldita’. E é, basicamente, o que enfrenta hoje Michel Temer. Que não é assim tão diferente das ratazanas que não enxergam nele legitimidade para governar, como se a Constituição fosse um gibi de quinta categoria.

Mas eu quero mesmo é chegar à questão do caráter. Dilma é ré, Lula é réu. Os dois podem – e espero que isso aconteça – ter que pagar com penas de privação de liberdade por seus atos. Dilma vai perder o cargo e entrar para a história como a pior presidente que este país já teve. E, certamente, uma das piores opções possível de todos os tempos. A disputa é apertada. Há gente cujos períodos de governo só não foram mais infelizes porque foram encurtados (como Sarney). E outros que a distância temporal já absolveu, na confortável falta de memória da maioria.

E o que o caráter tem a ver com isso? Tudo. Não se trata de aproveitar uma oportunidade, ou de implantar um modelo de gestão inclusivo. Isso nunca aconteceu. A roubalheira institucionalizada se transformou em sintoma de uma nódoa de caráter. Não havia mais a desculpa de se tirar dos ricos para dar aos pobres. Os pobres, como sempre, ficam com as migalhas. É para eles que se inventou o termo ‘genérico’, e se utilizou desse artifício para equiparar tudo que não tem a mesma excelência ou primor, ou rigor, ou o que lhes falte em relação ao original – inclusive nomes atraentes, fáceis de lembrar e embalagens visualmente interessantes.

Cada um escolhe o caminho que lhe convém. Mas não pode, fazendo assim, esperar que seja aplaudido por qualquer trilha que escolha. Chamar fulano de “direita”, “fascista” ou coisa assim não faz dessa pessoa alguém pior ou melhor do que aquele que a classifica. Aliás, quando um sujeito usa desse tipo de ação para rotular um seu semelhante que pensa e age diferente está, de fato, revelando muito sobre sua natureza. E seu caráter.

Então o caráter é aquilo que o sujeito traz ‘na alma’, é a forma como se relaciona com o mundo e as convenções sociais? Basicamente, sim. Há sujeitos por aí que são de bom caráter e outros cujo mau-caratismo salta aos olhos. Ou, é ele que nos assalta...

Começando do princípio: não acredito no caráter de quem mente. Simples assim. Se o sujeito omite, desvirtua a verdade, engana, altera os fatos, usa mentiras como argumentos, ele não tem um bom caráter. Em minha opinião, deixo claro. Outro critério: além de não mentir, para ser uma pessoa de bom caráter, precisa respeitar os outros. Respeitar os outros não só na medida em que é respeitado (“não te espanco porque você não me espancou”. Isso seria primário demais). O respeito de que trato aqui é algo maior: respeitar ao outro na mesma medida em que eu espero ser respeitado. Se ele não age assim, o problema é dele, não meu.

Um terceiro critério diz respeito às atitudes. Se fulano diz que é bom, que vai a uma igreja, que ajuda os pobres e que pensa no bem dos outros ele precisa mostrar isso, ao invés de apenas dizer, não é? Bem, isso se chama coerência. Ter um comportamento coerente com seu discurso é o essencial para que esse discurso tenha peso e fundamento. Alguém que só existe em função do noticiário ou da “opinião pública” vale tanto quanto alguém que não tem a menor noção de qual é o sentido da vida e de porque está neste mundo.

E, enfim, há outra grande questão. O corolário de ser verdadeiro, respeitoso e coerente é viver com liberdade, defendendo a liberdade alheia

Qual é, então, o caráter daquele cuja primeira providência é tolher a liberdade dos outros, temendo que lhe conheçam de verdade e saibam o que faz e com quem?