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Um oceano de lama

Quando a terra cedeu na represa da Samarco, estimados 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos se esparramaram pelos vales desde a região de Mariana (MG) até o estuário do rio Doce, no litoral do Espírito Santo. Imaginava-se, à época, que era o de pior que poderia acontecer. Não era. A maré de lama literal foi devastadora. Mas não tanto quanto a maré vermelha que transformou o Brasil, com firma reconhecida desde 2003 mas atuando desde meados dos anos 70, num condomínio de verdades eternas e certezas estúpidas.

A mais simplória das almas deste país sabe, hoje, que nunca foi verdade que os patronos do petismo andaram à míngua. Seus números são escandalosos. Suas ações também. Se este, aquele ou aquele outro, é o de menos. A grande estratégia funcionou durante décadas: dividir o país em oprimidos e opressores, entre loiros e não-loiros, entre “minorias” e os outros. Entre certos e errados. Estando, naturalmente, os novos bolívares de camiseta vermelha e estrela no peito, sempre entre os que merecem atenção, respeito, espaço, “direitos” e presunção de verdade.

Um oceano de lama, produzido pela mais insidiosa campanha de destruição da unidade nacional, inundou o país. Até bem pouco tempo, seus capitães-do-mato atacavam quem noticiava a existência dessa lama toda. Os que não cediam às ameaças nem a eventuais agrados, eram então processados. Sei do que falo. Fui um desses, processado pelo maior deles, Lula, e por outros, de muito menor calibre. Não funcionou. Nem comigo, nem com tantos outros.

O lamaçal já não podendo ser contido, buscaram então a vitimização. Acusam, como traço distintivo de seus métodos, os outros de fazer exatamente o que fazem eles. Quase metonímia, usam líderes oposicionistas como munição para proteger os seus. Se estes foram pegos com as mãos sujas da lama fétida e aqueles não, quem se importa? É a versão da verdade, multiplicada por úteis pouco inocentes, que ganha espaço, repetida centenas de milhares de vezes. É a dúvida, a incerteza, a discórdia, a suspeita, que estão plantando. O recurso à razão nunca lhes coube, nem será agora usado. O recurso é o da intimidação, do argumento energúmeno – no momento, de que se trata, um sujeito acusado de crime comum, de ser um gênio da raça, uma espécie de super-brasileiro, por isso mesmo imune às leis, tornando todos os demais, até os que o defendem, seres inferiores – e o da suspeita.

Não falta muito para que essa maré estanque. No plano do voto, ao contrário do que se vê desde a democratização, pararam de crescer e estão encolhendo. Agora, alguns encontram outros caminhos, outros rótulos, mantendo a mesma linha pragmática: convencer, assumir, pilhar, manter-se, pilhar mais. Mas a rua chama para uma faxina mais drástica. Ninguém quer esperar a eleição para evitar que o país afunde mais. Até que venha o inverno o governo precisa ser renovado. E vai ser: ou pelo impeachment, ou pela anulação do mandato.

A maré de lama de Mariana se diluiu no mar. O oceano de lama da roubalheira orquestrada vai ser dissolvido também. Nas ruas ou nos tribunais.