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Uma aliança de interesses e seus efeitos

Os inimigos da ‘salada ideológica’ devem estar surpresos. Os puristas, os basistas, a turma da esquerda-companheira também. Depois de usar o discurso da paridade ideológica, da proximidade de programas e do apoio pragmático, o deputado Aliel Machado, candidato da REDE à Prefeitura de Ponta Grossa, comemora o apoio de um de seus mais ácidos adversários no primeiro turno, o hoje vereador Júlio Küller. Que foi descartado no primeiro turno a bordo de uma aliança fisiológica comandada pelo PDT e pelo PMB. Com isso, Aliel se atira na política de resultados. Não importa mais o compromisso ideológico ou a compreensão superior das coisas, motivos tantas vezes citados para justificar sua postura no Congresso, quando se manteve fiel à tese do PT & assemelhados, votando junto com a bancada de Lula, Dilma & Companhia, e fazendo jus ao grande apoio que recebeu, dois anos atrás, da senadora petista Gleisi Hoffmann. Tudo isso já foi dito? Esse discurso de colar Aliel ao PT já cansou? Pois bem: é Aliel quem alimenta esse debate. É Aliel que justifica suas posturas, inclusive seus posicionamentos de campanha, empregando métodos, técnicas e táticas usuais do petismo. Isso lhe incomoda? Ah, certamente incomoda muito mais aos eleitores que imaginavam que sua filiação, em 2012/14 ao Partido Comunista do Brasil não significava mais do que um mero caminho para atravessar as eleições, não uma adesão a um programa histórico cheirando a mofo de décadas.

A ligação Aliel + Küller é tão mais surpreendente quando se sabe que os dois não estão juntos por pensarem a mesma coisa, ou por dividirem as mesmas aspirações. Estão juntos por conveniência política. É só uma aliança de interesses. Aliel joga no lixo sua postura de líder ideológico em favor do que pensa ser uma ajuda importante para atingir seu verdadeiro objetivo: resgatar sua perspectiva de trajetória política ascendente e conquistar a prefeitura. Não será fácil. Küller, em muitos aspectos, é o extremo oposto daquilo que Aliel representa. Este é jovem, o outro mais experiente. Este teve um caminho de permanente convívio – quase uma simbiose – com o petismo e outras esquerdas, enquanto Küller sempre esteve mais próximo da oposição a esse modelo. Os dois, em dado momento, empregaram o adversário de Aliel no segundo turno, o prefeito Marcelo Rangel (PPS) com ‘escada’. Júlio Küller foi secretário municipal, em períodos sucessivos. Como vereador, votava sistematicamente com a bancada governista. Aliel por sua vez, usou um momento de consenso – a necessidade de superar o impasse com relação à tarifa do transporte coletivo e a ameaça de suspensão do serviço – quando atuou junto com Rangel para resolver o problema, para impulsionar sua posição junto a uma parcela expressiva do eleitorado e lançar as bases de sua campanha a deputado federal.

Não é de todo estranho, portanto, que agora empreguem seu tempo para tentar convencer o eleitorado que eles, politicamente beneficiados em diferentes circunstâncias pelas respostas positivas da gestão Rangel, agora tentem unir suas forças para superá-lo. Sabem o quanto ele foi importante para a consolidação de suas próprias ações, e sabem o quanto podem influir, futuramente, nas próximas eleições.

O problema é que essa aliança tem reflexos e consequências. Em curto prazo. Küller está convencido de que os votos que recebeu dia 2 de outubro o credenciam a disputar outras cadeiras, como a de deputado estadual. Aliel, se não for o vencedor dia 30, poderá se candidatar novamente a deputado federal daqui a dois anos. Mas não só eles. Entre os prováveis candidatos a deputado federal está o hoje estadual Márcio Pauliki, que foi o maior cabo eleitoral de... Júlio Küller!  E com quem Küller, na remota hipótese de manter seu potencial de votos, vai ‘dobrar’ em 2018: com Aliel (se derrotado agora) ou com Pauliki? Com quem lhe deu vitrine, apoio e suporte, ou com o ex-adversário-agora-aliado, que é também desafeto de Pauliki? Este, por sua vez, não leva sorte: apoiou Aliel em 2014, inclusive financeiramente. Viu uma aliança do seu PDT com a Rede de Aliel naufragar. Agora apóia Küller, que se coloca como ameaça até mesmo a uma nova tentativa de Pauliki de tentar a reeleição para a Assembléia Legislativa.

O resultado das eleições do dia 30, como se vê, vão muito além dos próximos quatro anos. Uns vão comemorar. Outros já têm na boca outro sabor. Muito mais amargo.