22°
Máx
17°
Min

O desserviço que a "Veja" prestou ao jornalismo e ao país

A revista Veja, que tantos méritos acumula em sua história – um deles a denúncia de Pedro Collor que resultou na cassação de seu irmão Fernando –, prestou um imenso desserviço ao país e ao jornalismo em sua última edição. O tema central foi a menção ao ministro Dias Toffoli, do STF, na delação de Léo Pinheiro, um dos mandachuvas da OAS e réu da Lava Jato.

O que haveria de desabonador para o ministro na suposta delação do empreiteiro? Nada, absolutamente nada, mera e inofensiva menção de que ele se queixou a Pinheiro de infiltrações em sua casa e pagou pelo serviço providenciado pelo empreiteiro. E ponto final.

A revista sugere, no entanto, que essa citação era apenas a porta de entrada de um labirinto de maracutaias, já que, se não tivesse o que delatar sobre Toffoli, Pinheiro não o teria incluído no cardápio de revelações a fazer aos investigadores da Lava Jato.

Essa é a primeira – e grande – falha da revista: pôs em dúvida a honorabilidade de uma autoridade pública (fosse um cidadão qualquer daria no mesmo) sem a menor fundamentação. A Veja procedeu, portanto, da mesma forma como os petralhas e sua fabulosa máquina de difamação, a quem tanto a revista combate – e a quem essa cambada tanto odeia. A atitude da Veja violentou a norma básica do jornalismo, que é municiar-se de provas (ou indícios sólidos) quando questionar a conduta de alguém. Ela difamou e injuriou Toffoli sem base factual – e pode (e deve) responder por isso.

O segundo desserviço da Veja foi às investigações da Lava Jato e, portanto, ao país, que depende delas para passar a limpo e punir os responsáveis pelo maior esquema de desvio de recursos de que se tem notícia, o petrolão e seus derivados. Pois a matéria ensejou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a declarar “encerradas definitivamente” as negociações para a delação de Pinheiro.

Janot alegou que o vazamento comprometeu o acordo de “confidencialidade” que baseia toda delação. E, depois de uma troca de farpas com o ministro do STF Gilmar Mendes, que atribuiu a responsabilidade pelo vazamento ao Ministério Público, negou enfaticamente que houvesse qualquer menção a Toffoli na delação de Pinheiro.

A decisão de Janot é estapafúrdia. Em primeiro lugar, pune o réu, principal interessado em preservar a “confidencialidade” da delação (do contrário, não a estaria negociando) e, mais grave ainda, emudece o portador de segredos capazes de abalar a república e alguns de seus próceres – entre eles o ex-presidente Lula, beneficiado com a reforma de um tríplex e de um sítio que jura não serem dele, financiada pela OAS. Pinheiro era confidente de Lula, daí sua prodigalidade em relação ao ex-presidente.

E mais: por que cancelar essa delação por causa de vazamento se tantas outras também vazaram e mesmo assim foram mantida pela Procuradoria e homologadas pelo STF?

O bate-boca de Janot e Mendes serve de cortina de fumaça à decisão do procurador. É preciso dissipar essa cortina para chegar 1) ao responsável pelo vazamento, que agiu com evidente má-fé em relação à Lava Jato; 2) o que motivou a Veja a embarcar nessa trama e 3) a verdadeira razão que levou Janot a calar Pinheiro.

Lula deve estar rindo dessa barafunda toda. E o silêncio dos petralhas revela o quanto ela beneficia os interesses do líder.

Acompanhe www.josepedriali.com.br