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O discurso mais contundente e emocionante da comissão do impeachment

Eram 3h42 de sábado quando o deputado tucano Caio Narcio iniciou a sua intervenção na comissão que analisa o pedido de impeachment da presidente@ Dilma Rousseff. A sessão durou 13 horas – uma das mais longas da história do Congresso.

O discurso de Narcio durou pouco mais de seis minutos, e o considero o mais contundente e emocionante de todos a que assisti desde o início dos trabalhos da comissão. Por isso o transcrevo, arrumando uma coisinha aqui, outra ali e tirando uns cisquinhos – falhas mais que compreensíveis quando se fala de improviso.

Narcio é mineiro de Uberlândia e está no primeiro mandato. Tem 30 anos e é cientista político e social pela PUC, onde foi líder estudantil.

Seu discurso é histórico.

Ei-lo:

O Brasil está se encaminhando para uma encruzilhada.

Daqui a pouco vamos ter que dividir o Brasil numa decisão clara e serena entre o que nós queremos construir para o nosso Brasil. Qual o país que queremos fazer para as pessoas que virão depois de nós.

Aqui, durante essa noite, assisti a todos os argumentos: políticos, jurídicos, éticos e morais. E algo ficou muito claro: o contorcionismo de alegações por parte do governo para tentar explicar o inexplicável. O fato é que, do ponto de vista jurídico, muito bem explicado aqui por tantos juristas, houve sim a usurpação do direito do Legislativo em cumprir o seu papel de legislar o Orçamento. Isso é crime de responsabilidade.

Houve, sim, não o empréstimo de bancos, porque eu entendo empréstimo quando uma instituição tem a opção de escolher se vai ou não emprestar. E nesse caso nem isso foi dado.

As instituições foram vítimas das “pedaladas”. Não foi perguntada ou dada a possibilidade ao Banco do Brasil, Caixa ou BNDES se eles poderiam emprestar o dinheiro ao governo sem prazo. Foi simplesmente tomado deles aquele valor, e quando pôde, o governo pagou.

Portanto, do ponto de vista jurídico, o crime de responsabilidade está comprovado.

Assistimos aqui por parte do governo, com todo o respeito, a explicações desesperadas e até patéticas dizendo: “Nós fizemos, mas foi pouco”; “nós fizemos, mas os outros fizeram também”.

Ora, que Brasil é esse que nós vamos construir? “Eu cometi um crime, mas é pequeno, não é tão grande assim...” Ora, ou é crime ou não é! “Se eu matar pouquinho não vale, eu não vou para a cadeia”. Que país é esse?

As pessoas têm que assumir as suas responsabilidades. Um presidente da República foi eleito para gerir o país. Pare de falar “eu não sei, eu não sabia”. Pare de fingir que não era com você! A nossa presidente da República pega o telefone para ligar para o ex-presidente e diz: “Estou mandando aqui o seu habeas-corpus adiantado” e depois diz: “Não era bem isso...”

Ficou claro o dolo, a má intenção e, acima de tudo, a ciência do crime. A ciência do crime premeditado. E a prova do crime premeditado é quando o governo faz o PL 5 (PL 2/215, que altera, em novembro de 2015, a meta fiscal daquele ano prevista no Orçamento e estourada em mais de R$ 100 bilhões)., reconhecendo que cometeu o crime e tem que limpar a cena do crime (...) Limpar a cena do crime não quer dizer que o crime deixou de ser cometido.

Sem sombra de dúvida, o crime, do ponto de vista jurídico, foi cometido. E é inquestionável.

Mas a discussão que eu quero fazer para o Brasil hoje, que está nos ouvindo agora e que mandou seis milhões de brasileiros para as ruas, a discussão é do ponto de vista moral, ético: qual o Brasil que nós vamos construir? Qual a história que eu vou contar para o meu filho, para a minha filha? “Ora, meu querido, eu não votei no impeachment, com crime comprovado, por quê? Porque no Brasil a Constituição não vale nada! (...) A constituição está escrita mas ninguém precisa respeitar.”

Não é essa a mensagem que nós devemos passar para o Brasil. Para as pessoas que estão lá fora até as quatro horas da manhã ouvindo a gente.

E peço desculpas por insistir tanto para ter direito à fala aqui. Porque estou ouvindo há dez horas os argumentos dos homens públicos mais completos do Brasil. E é importante que se diga: muito bem preparados, inclusive aqueles dos quais divirjo. Que têm e terão sempre o meu respeito. Porque na encruzilhada em que estamos, há os homens da direita e da esquerda, mas há também os homens do muro. Esses não merecem o meu respeito! Esses, o vento cuidará de levar suas opiniões. Esses não têm o meu respeito.

Eu sei o que vou fazer domingo: vou votar a favor de construir um Brasil decente!

E o que vem depois depende de nós, de cada um que está aqui.

Não venham com ameaças pra cima da gente. Aqui, sempre haverá serenidade. Mas sempre haverá coragem. Não vai faltar coragem. Não adianta nos intimidar e muito menos dizer que o Brasil que vem depois desse escárnio será pior do que está agora. Não há jeito de ser pior! Não há jeito de ser pior!

Tenho amigos que estão no PT e amigos que são aliados do PT, e eu vejo o sofrimento dos homens decentes que ainda estão lá. Eles defendem hoje o que eles passaram uma vida combatendo. Eles se tornaram o que nasceram para acabar: a corrupção e a desonra do trabalhador, dos quais tiraram os direitos e as oportunidades. Jogaram no lixo a história e não conseguem chegar em casa de cabeça erguida. Eles traíram a sua história!

Entendo que um homem honrado que ajudou a construir a história de um partido, que era bonita, precisa ser respeitado. É bonito ver um operário chegar à presidência da República. É bonito garantir aos necessitados o direito de ter acesso ao ensino público. A ter acesso à casa própria. Mas isso não dá o direito de eles (petistas) nos assaltarem!

Eles não têm o direito de fazer isso!

Eu digo a vocês com muita tranquilidade: no próximo domingo teremos um encontro com a história. E o que queremos construir e saber é como vamos agir do ponto de vista ético e moral. Eu digo a vocês: eu vou dizer não às mentiras; vou dizer não à corrupção; vou dizer não à indecência. E vou dizer sim ao Brasil. O Brasil dos homens de bem. Como os que estão aqui até agora. Vocês estão aqui até agora e não estão dormindo porque acreditam no nosso país.

É por isso que o Brasil ainda tem esperança.

Eu vou estar ao lado do povo, da multidão que estará nas ruas porque acredita no Brasil. Eu vou estar ao lado do Brasil.

Encerro com a frase do grande Millôr Fernandes: “Brasil. Um país condenado à esperança”.

Viva o verde a amarelo!

Vivam os homens de bem!

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