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Quando tentaram matar o tirano. E eu estava lá

Domingo, 7 de setembro de 1986. 18h30. Um comando da Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FPMR) embosca o comboio que transporta o general Augusto Pinochet de sua residência nas montanhas para sua residência em Santiago. Local do ataque: Cajon del Maipo, uma estrada sinuosa incrustrada nos Andes. Pinochet se salva graças à perícia de seu motorista, mas cinco de seus guarda-costas morrem, vários ficam feridos. Os carros da comitiva – exceto o dele – são pulverizados.

Domingo, 7 de setembro de 1986. 18h30. Este que vos escreve desembarca no aeroporto Arturo Merino Benítez, de Santiago, para iniciar seu trabalho como correspondente do Estadão. Ao deixar o local, cruza com tropas do Exército espavoridas, protegidas por helicópteros que vasculham o perímetro com seus holofotes.

O que tenho a ver com essa história? Nada além de ser testemunha ocasional e poder relatá-la. E lembrá-la.

O que teria acontecido se os comunistas da FPMR – que planejaram e executaram o atentado com maestria, mas foram frustrados pelos detalhes... sempre os detalhes! – tivessem atingido o objetivo?

De imediato, mais violência, mais truculência, e possivelmente o prolongamento do regime militar, que dois anos depois seria posto à prova em plebiscito determinado pela Constituição.

A reação da população a essa consulta poderia ter sido outra, mas foi a de rejeitar a continuidade de Pinochet – e portanto das Forças Armadas – no comando da nação.

Os protagonistas do atentado tentaram sufocar a violência da direita com a violência da esquerda. Ambos os lados perderam. A democracia se impôs.

Pinochet morreu há 10 anos, desprezado até por aqueles que um dia o cultuaram como salvador da pátria, porque se envolveu em corrupção. Os que tentaram matá-lo ou foram mortos ou se exilaram ou cumpriram pena de prisão. Não há mais espaço para eles na vida política chilena.

Democratas cristãos, socialistas, um herdeiro político de Pinochet, socialistas de novo (a ordem é mais ou menos essa) sucederam a ditadura, atestando a saúde do sistema. Saúde que se expressa também no longo período de crescimento econômico continuado, iniciado justamente naquele ano. O Chile é a economia mais pujante da América Latina.

Abajo a Pinochet!

Abajo a los extremistas, sea de que color sean!

Y viva la democracia!

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