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Cientista acompanha a trajetória artística do corpo

(Foto: Divulgação)  - Cientista acompanha a trajetória artística do corpo
(Foto: Divulgação)

Nem tudo é o que parece ser na tela A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, observa o cientista e curador inglês Hugh Aldesery-Williams. O corpo do ladrão Adriaen Adriaenszoon, de 28 anos, estirado em cima da mesa, foi desmembrado pelo médico e remontado por Rembrandt "como o monstro de Frankenstein", segundo Aldersey-Williams, autor do livro Anatomias. Há, diz ele, controvérsias quando ao fato de a mão dissecada do ladrão, que foi enforcado, ser uma reprodução exata. Rembrandt não era um especialista em anatomia.

O livro do cientista inglês é uma obra que prende a atenção do leitor desde o prólogo, que analisa Rembrandt, até o epílogo, em que ele fala do "transumano", gênero não mais confinado à ficção científica, segundo Aldersey-Williams, que mistura, em Anatomias, ciência, arte e literatura para investigar como o corpo humano foi tratado na pintura, na música, no teatro e nos romances.

O autor divide seu livro como se desmontasse um corpo. Cada capítulo é um pedaço dele. Quando fala da orelha, cita a de Van Gogh, que decepou a esquerda. Mas, se Van Gogh livrou-se da orelha esquerda, por que diabos aparece com a direita coberta por um curativo em seu Autorretrato com Orelha Enfaixada? (à esquerda) Resposta: há mais de uma versão do autorretrato. Esse, pintado logo após o incidente, deve ter sido feito pelo artista diante do espelho, perturbado a ponto de inverter a posição das orelhas.

Mas, em arte, dividir o corpo em partes tem lá suas vantagens, segundo o cientista inglês. Criminosos notórios eram identificados por xilogravuras do século 16 com traços rudimentares, o que não se aplica ao sistema computadorizado Evo-fit, que permite à testemunha de um crime reconhecer os rostos de suspeitos de modo holístico, com a união de fragmentos de rostos verdadeiros. O livro se vale, enfim, tanto da ciência médica como da filosofia e da literatura para analisar nossa percepção do corpo.

Seu autor recorre a exemplos extremos, como o do agiota Shylock, personagem de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. No lugar de exigir juros de um homem que lhe pede dinheiro, ele requisita uma libra de sua carne, caso não pague o empréstimo. A palavra carne aparece 142 vezes na peça. De todos os órgãos do corpo, o mais falado é o coração. É também o mais pintado. O rim, de forma tão agradável quanto o coração, nem conta. Talvez porque venha com sobressalente.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.