27°
Máx
13°
Min

'Godspell - Musical' estreia com forte marca no trabalho cênico

Os 13 atores estranharam no início dos ensaios, quando foram recebidos pelo diretor Dagoberto Feliz. "Ele estimulou o grupo a fazer alguns jogos teatrais despretensiosos até que, em determinado momento, se sentia satisfeito", conta Beto Sargentelli. "E, para nossa surpresa, muitos desses jogos foram incorporados à encenação. Eu não estava mais acostumado a trabalhar assim." Foi dessa forma, pouco usual para quem atua no gênero, que Dagoberto preparou sua versão de Godspell - Musical, que estreia na quinta-feira, 4, no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado.

Por conta do excesso de detalhes na produção, musicais são habitualmente espetáculos rígidos em sua forma a fim de não comprometer o entrosamento entre canto, dança e interpretação. Grandes montagens têm um rigor em seu formato que deve ser seguido em qualquer país onde é encenado - com isso, a qualidade original é preservada. Mas Dagoberto Feliz é um homem essencialmente do teatro, aquele onde a inspiração caminha livremente, sempre em busca do melhor resultado. "Sei da rigidez na estrutura dos musicais, mas Godspell me pareceu mais livre e me permitiu várias leituras, principalmente metateatrais, por se tratar de um grupo de pessoas e várias historinhas", comenta.

De fato, Godspell mostra a reunião de um grupo de amigos - na verdade, Jesus e seus discípulos. Baseado nas parábolas do Evangelho de São Mateus, o musical foi escrito em 1971 por Stephen Schwartz e John-Michael Tebelak a partir de uma ideia nascida de um projeto realizado por estudantes universitários em seu trabalho de conclusão de curso e que acabou se transformando em um espetáculo de sucesso na Broadway. A proposta era servir de contraponto a outra montagem que também conquistou grande êxito na época, Hair, ao enfatizar o legado do cristianismo e, principalmente, da personagem de Jesus como filho de Deus e salvador da humanidade.

Se, nos anos 1970, a estética hippie influenciou decisivamente as primeiras montagens, a que chega agora a São Paulo traz a forte marca das ruas, desde o hip-hop até a diversidade marginal das diversas tribos. Assim, em sua proposta de manter aberto o jogo cênico, Dagoberto, auxiliado pelo cenógrafo Paulo Correa, pensou em um cenário aberto, formado por elementos habitualmente usados por atores, como figurinos, adereços, objetos de cena. "Minha ideia é mostrar três níveis de interpretação: a dos atores, dos personagens e dos atores fazendo personagens. Gosto da ideia construtivista, aparente, sem maquiar as coisas, assumindo as estruturas como elas são, como uma colagem e descolagem de cenas, onde eles estejam com os camarins no palco, por exemplo, mas não como um ensaio, e sim como metalinguagem - um teatro dentro do Teatro. Encaminhei as interpretações para que fossem para este lugar, pois, afinal, tudo não passa de uma encenação."

Foi nesse jogo que o elenco entrou de cabeça. "Foi uma espécie de criação coletiva, pois mexemos em algumas cenas, acrescentamos outras e até repaginamos canções, como a famosa Day by Day", conta Beto Sargentelli, que inicia o espetáculo no papel de João Batista e, depois de batizar Jesus, transforma-se em Judas com um toque tipicamente teatral: passa a usar um gorro. "Usamos as letras em função da história. E o mais importante é o que estamos dizendo e não como. Daí a importância do uso das técnicas cênicas."

Beto firma-se como um dos grandes nomes do teatro musical brasileiro, com uma carreira que inclui importantes participações em trabalhos como Jesus Cristo Superstar, O Rei Leão, A Família Addams e, mais recentemente, We Will Rock You. Agora, além do protagonismo, ele retoma técnicas que aprendeu no início da carreira, quando chegou a encenar peças de Pirandello.

Como João Batista ou Judas, ele divide a cena com dois atores que se alternam no papel de Jesus, Leonardo Miggiorin e Rafael Pucca. O revezamento não estava previsto dessa forma, mas Miggiorin precisou se ausentar em alguns momentos por causa das gravações da novela em que está participando, A Terra Prometida, da Record. Com isso, Pucca, que inicialmente seria o alternante de Sargentelli e Miggiorin, consolidou-se como Jesus.

"Conversei muito com o Dagoberto sobre como interpretá-lo de forma despojada, mas sem perder a importância", conta Pucca que, no início, criou um Jesus com muita majestade. "Dago logo me disse que não queria algo soberano, mas com simplicidade", continua o ator, que logo mudou, principalmente nos pequenos gestos. "Agora, Jesus olha de baixo para cima para as pessoas e não o contrário, como vinha fazendo." Para Miggiorin, Dago "brinca com os clichês do musical, além de apostar na fantasia sem parecer alienado".

Godspell mostra como um grupo de 10 pessoas - arquétipos da sociedade pós-moderna e que podem ser encontrados em qualquer grande metrópole - tem seus caminhos cruzados por João Batista/Judas e por Jesus. Esse encontro inesperado altera as ações e o olhar de todos para a vida. Daí a grande importância das canções. "Sua partitura é extremamente desafiadora", observa o ator Carlos Alberto Jr., que aqui atua como diretor musical e também diretor da LS Produções Artísticas, responsável pelo espetáculo. "O elenco precisa mostrar uma energia vocal que atravessa o rock e o gospel para cantar clássicos como Day by Day e Bless The Lord. O libreto permite ao espectador uma reflexão sobre suas ações e traz os ingredientes que compõem essa história rica em mensagens, tão apaixonante e atemporal."

As letras das canções ganharam novas versões assinadas por Guilherme Leal e Kaíque Azarias que, "após uma epifania poética, optaram juntos por letras tocantes, reflexivas e fiéis". E, ao contrário da maioria de outros musicais, que privilegia os protagonistas com as melhores músicas, em Godspell todos atores têm seus solos, o que permite descobrir talentos vibrantes de jovens como Juliana Peppi (Joane), Pedro Navarro (Lamar), Matheus Severo (Herb) e Artur Volpi (Jeffrey), todos em momentos marcantes. Em grande nível, também estão Nathália Borges (Sonia), Mariana Nunes (Gilmer), Fernanda Cascardo (Peggy), Gabi Medvedovksi (Robin) e os alternantes Pri Esteves e Adler Henrique.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.