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Museu Afro Brasil exibe 'Entreolhares'

"A arte popular não trabalha a ideia de conceito, mas de narrativa", afirma Fábio Magalhães, curador, ao lado de Edna Matosinho de Pontes, da mostra Entreolhares - Poéticas dAlma Brasileira, que acaba de ser inaugurada no Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera. Que o diga a Torre ou Chapéu de Guerreiro (2008), de Sil (Maria Luciene da Silva Siqueira). A grande peça de cerâmica é um mundo de histórias pontuadas por pequenas jaqueiras, marca das criações da artista nascida em Cajueiro, Alagoas, e criada em Capela - na obra, por exemplo, velhos casais dançam observados por cachorros e há até uma fila de pessoas enfermas à espera da vez de passar na benzedeira da cidade.

A escultura de Sil é uma delicadeza e, de fato, um destaque de Entreolhares. Mas o visitante da exposição surpreende-se também com a riqueza da representatividade de criadores e de obras, cerca de 200, selecionadas pelos curadores para essa antologia da arte popular brasileira, que tem como marco inicial as décadas de 1940 e 50 e como característica, ainda, "a fusão", diz Fábio Magalhães, com criações de modernistas e contemporâneos - entre eles, Tarsila, Guignard, Volpi, Antonio Henrique Amaral, Nelson Leirner, Rubens Gerchman e Siron Franco.

De começo, são as representações de animais que recebem os espectadores e mostram, como afirma Edna Matosinho de Pontes, as diferentes "formas, criações, técnicas, fantasias" trabalhadas por criadores a partir de um tema. Já de início, aparecem nas peças escolhidas para abrir a exposição questões tão presentes na arte popular e destacadas por Magalhães - como a dualidade entre o bem e o mal, a terribilidade do desejo e o bestiário da natureza (incluindo os bichos e os fenômenos naturais).

Duas históricas carrancas do Mestre Guarany, filho de um construtor de barcas da região do Rio São Francisco - uma é "navegada" e a outra, obra feita sob encomenda como artefato artístico já que o baiano foi reconhecido em vida como artista -, são criações de peso do primeiro segmento de Entreolhares, mas elas abrem o percurso da mostra dialogando com esculturas de Nino, um dos principais representantes de Juazeiro do Norte; Véio, que teve, no ano passado, elogiada individual na programação paralela da última Bienal de Veneza; José Bezerra; Artur Pereira; Mestre Cunha; Nuca; e João Alcântara.

O bloco temático reserva, ainda, pinturas selecionadas dos períodos mais importantes de criadores conhecidos, como a tela de 1990 de Alcides e obras de Waldomiro de Deus, José Antônio da Silva e Nilson Pimenta. "Ele mora há muitos anos em Cuiabá, mas a coisa mais incrível é que ele nunca foi ao Pantanal porque gosta de fazer suas obras aos poucos, imaginando", conta Edna sobre este último artista, representado por uma obra de 1982. "Há uma coisa de brasilidade, que não sei definir o que é, que toca por dentro", diz, de um modo geral, a curadora, que é colecionadora de arte popular desde a década de 1970 e proprietária da Galeria Pontes.

O gênero pictórico, aliás, é um forte da exposição. A primeira conversa entre um erudito, por assim dizer, e um autodidata acontece quando os curadores colocam lado a lado a "ingenuidade" de criações da modernista Anita Malfatti e de Júlio Martins. "São pinturas de lirismo, quase metafísicas, paisagens com erotismo casto, com sensualidade do voyeur", afirma Fábio Magalhães sobre o pintor que se aposentou como cozinheiro e morou até sua morte no morro União, em Coelho da Rocha (RJ), conta a crítica Lélia Coelho Frota no referencial Pequeno Dicionário do Povo Brasileiro. "Lélia diz que são paraísos perdidos", continua Magalhães sobre as telas de Martins.

Há, ainda, o diálogo de Volpi e Agostinho Batista de Freitas, a presença de uma "Tarsila decadente", define o curador - de 1972 -, e dos pintores Guignard, Cícero Dias e Di Cavalcanti.

Como Entreolhares é uma mostra de fôlego, vale também destacar as peças históricas de Mestre Vitalino, as gravuras de Samico e o segmento dedicado à raiz africana com, entre outras obras, esculturas de madeira de Agnaldo, a Santa Ceia talhada em jacarandá por Louco (Boaventura da Silva Filho) e as pinturas de Maria Auxiliadora - uma delas representando uma cena de terreiro de candomblé.