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Museu muda a altura das obras para alcançar o público mirim

Museu pioneiro na educação artística de crianças na América Latina, que começou em 1947 com o projeto do Club Infantil de Arte, aberto seis meses após sua inauguração, o Masp - Museu de Arte de São Paulo - tem atraído uma multidão de pequenos visitantes para a exposição Histórias da Infância, a primeira da nova gestão, iniciada em 2014, que toma por empréstimo obras de outras instituições e colecionadores particulares. Detalhe: essas crianças não são passivos espectadores, mas ativos participantes da mostra. Além da inclusão de seus desenhos, ao lado de mestres como Chardin, Renoir e Portinari, algumas delas colaboraram com a produção de audioguias, dando suas impressões sobre as obras expostas, primeiro dos dois projetos especiais de mediação ligados à exposição, que segue até 31 de julho.

O segundo projeto especial é uma oficina de desenho para crianças entre 5 e 11 anos, que será realizada nos dias 30 deste mês e 1.º de maio, a primeira delas orientada pela artista Rivane Neuenschwander, autora da obra mais popular da mostra, uma mesa que desconcerta os adultos por sua simplicidade. Os pequenos, ao contrário, logo descobrem sua função: sob o tampo encontra-se um convidativo quadro negro, pronto para ser usado como suporte artístico.

Numa exposição que reúne alguns ícones do acervo do Masp, como Bellini, Reynolds e Van Gogh, além de peças raras de outros museus (Pinacoteca, Museu Afro-Brasil) e coleções particulares (Ladi Biezus, Orandi Momesso), a mesa de Rivane serve como seta orientadora da nova proposta educacional do museu, após a saída do curador da área, Paulo Portella, que seguiu a tradição iniciada pela educadora Suzana Rodrigues (1919-2010) com suas exposições didáticas dedicadas a formar um novo público com o ensino de crianças, de 1947 em diante.

O programa educativo do Masp mudou de nome e formato. Chama-se agora Núcleo de Mediação e Programas Públicos. Coordenado por Luiza Proença e Lucas Oliveira, o núcleo promoveu para a mostra um seminário, realizado em outubro do ano passado, para discutir um tema complexo: a construção da ideia da infância pela arte, que reuniu educadores, antropólogos, curadores e críticos. Histórias da Infância, afinal, é uma exposição ambiciosa, que abriga variadas representações da infância em épocas diversas, da arte africana à brasileira, passando pela europeia, reunindo obras de culto religioso, barrocas, acadêmicas, modernas e contemporâneas.

Apresentadas de forma não cronológica e subvertendo a hierarquia imposta pela historiografia oficial, essas duas centenas de obras foram escolhidas pelos curadores - Adriano Pedrosa, Lilian Schwarcz e Fernando Oliva - para criar "fricção". O curador Oliva justifica essa proposta como uma maneira de "estimular novas leituras" de obras consagradas. Assim, ao lado da tela Rosa e Azul, do pintor impressionista Renoir, que retratou em 1881 as irmãs Alice e Elizabeth, filhas do banqueiro Cahen dAnvers, a curadoria colocou uma foto de Bárbara Wagner com dois meninos em trajes de banho numa praia do Recife, evidenciando a distância social entre as crianças.

Dividida em sete núcleos temáticos, a mostra traz desde retratos a representações de família, passando pela morte (no primeiro andar do museu) até cenas de natividade e maternidade (no primeiro subsolo). O último núcleo se impôs, segundo Oliva, pela relevância temática dentro da história da arte. Ou histórias, considerando que, ao lado dos pastores que adoram o menino Jesus na tela de Bartolomeo Passante, ativo em Nápoles em meados do século 17, os curadores instalaram, um outro bebê, só e desamparado, esculpido pelo contemporâneo Edgar de Souza, e uma série de menininhos indo-portugueses em marfim do século 17 que dão o que pensar sobre a representação da infância do Messias.

E, para que as crianças se sentissem integradas a essa história, a expografia adaptou a altura das obras ao tamanho dos pequeninos. Foi rebaixada a medida padrão, de 1,50 m para 1,20 m (no 1.º andar) e 1,30 m (no subsolo). Histórias da Infância, segundo Oliva, busca "reencenar" algumas experiências dos educadores que construíram o marco zero do setor educativo do Masp - como o encontro do escultor norte-americano Calder com as crianças, que acabaram trocando móbiles com o mestre. "Queremos evitar uma posição de poder ao falar com a criança, evitar o discurso de autoridade que inibe a apreciação da obra de arte e a criação", diz o curador Oliva, justificando a opção por oficinas com artistas - e, além de Rivane Neuenschwander, já confirmaram presença Thiago Martins de Melo, Lays Myrrha e outros.

"Nossa ideia não é a de formar o outro, mas aprender com o público", resume a curadora do núcleo de Mediação e Programas Públicos, Luiza Proença. Mediação, e não monitoria, é a palavra de ordem hoje no Masp, que entende ações como a do audioguia das crianças e das oficinas como alternativas experimentais de se relacionar com a produção artística, seguindo o exemplo pioneiro de Mário de Andrade, Flávio de Carvalho e Mário Pedrosa, três grandes que acreditaram nos pequenos cidadãos como artistas, sugerindo ou organizando exposições como essa do Masp. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.