22°
Máx
16°
Min

Vencedora do Triga de Ouro, Aby Cohen expõe obras de oito países

O olhar de Aby Cohen para a cenografia mundial acompanha as curvas do horizonte. No Brasil, a cenógrafa foi uma das responsáveis pela seleção premiada de 26 trabalhos nacionais que integraram a mostra apresentada na 12.ª edição da Quadrienal de Praga, principal evento dedicado à arte da cenografia. O troféu recebido em 2011 reverenciava a exposição que reunia o resultado da criação de espetáculos de companhias como Os Fofos Encenam, Teatro da Vertigem, os Clowns de Shakespeare, além de arquivos da minissérie Hoje é Dia de Maria e objetos cenográficos pintados pelos grafiteiros OSGEMEOS. "Claro que foi uma surpresa, estávamos competindo com mais de 60 países", lembra a cenógrafa. Mais tarde, o sucesso rendeu um convite para integrar a equipe da mostra checa na edição de 2015.

A observação inquieta da cenógrafa que acompanha a produção cenográfica no mundo deu origem à exposição Desenhos de Cena #1, que tem abertura para o público nesta sexta, 15, no Sesc Pinheiros. Ao todo, 16 artistas apresentam trabalhos que foram fruto de um encontro das artes visuais e sonoras com as artes do palco. "São coisas que estão acontecendo por aí. Você vê cada vez mais curadores de galerias convidando artistas para explorar a teatralidade em suas obras, ou performances que surgem a partir de um texto ou imagens."

O avanço da tecnologia também abriu campos para experimentação. O trabalho do britânico Peter Mumford exigiu um software específico para criar as sequências de variações de luz captadas nas vidraças da Catedral Anglicana Guildford, na Inglaterra. O vídeo exibido na exposição traz o resultado da instalação Light Paintings, criada pelo artista originalmente para a igreja. "Ele captou as cores dos vitrais para explorar as variações dos tons e da iluminação. Isso cria efeitos muito delicados e ricos", diz a curadora.

Na área de sonoplastia, destacam-se dois trabalhos. Em Melting Point (Ponto de Fusão), do finlandês Anti Mäkelä, grandes blocos de gelo são pendurados com microfones projetados para captar sons subaquáticos. À medida em que a pedra derrete, os pingos que caem também têm seus sons ecoados por meio de caixas ou fones de ouvidos. "São barulhos muito incomuns a partir de elementos que convivemos no dia a dia", explica Aby. Em Whispers (Sussuros), o britânico Ian Evans buscou compor trilhas com os sons produzidos pela vibração de objetos. Com dispositivos colocados em placas de metal e vidro, o artista concebeu uma instalação sonora acionada pelo toque das mãos.

O Brasil vem representado em No Ar, da artista visual Laura Vinci. Localizada no lado externo da exposição, a instalação produz névoas e vapores de água, em meio a plantas. "É uma obra que também precisa ser ativada", explica Aby. Ao abrir a porta, o mecanismo aciona um sistema de liberação do vapor, que ocorre durante certo tempo. "Com os ventos fortes dessa região, será possível criar imagens muito interessantes." A figurinista Marina Reis traz sua Bailarina de Papel, que integra uma performance, explica a curadora. "O vestido dessa bailarina dos sonhos foi feito com pastas-arquivo e as pessoas poderão escrever seus sonhos e colocar nos espaços disponíveis", conta Aby. A artista visual Valéria Martins mostra sua performance Incompleto, que traz um grande rolo (ou bobina) que precisa de interação física de acrobatas para ser acionado. A performance estreou em 2009, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro.

Formação

Diante da numerosa produção teatral no Brasil, Aby reproduz um diagnóstico velho conhecido a respeito das deficiências e dos desafios desse mercado. "Há mais de 20 anos, ouço uma conversa de que os técnicos estão morrendo, de que não estamos formando profissionais e de que não aprendemos o bastante. Não é só isso, do mesmo modo há falhas na formação artística."

Ela diagnostica que, no geral, ou há grandes produções ou existe apenas uma cena que se resolve com poucos elementos. "Na maioria dos grandes teatros de São Paulo, os artistas não trabalham só com o que têm de equipamento. Mas não se varia muito. É preciso tomar cuidado para não ficarmos estagnados."

Apesar desse contexto, a cenógrafa crê que isso também pode fomentar a criação de obras que não dependem de um espetáculo para que sejam realizadas. "Vejo que há um desejo de designers e sonoplastas de criar projetos autorais, instalações que dispensem diretor e atores. É uma resposta a esse não lugar."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.