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Culto a 'Rebecca' inspira Almodóvar

Único filme de Alfred Hitchcock a receber o Oscar, Rebecca, a Mulher Inesquecível, de 1940, não ganhou também o Oscar de direção. Naquele ano, a Academia de Hollywood preferiu outorgar a estatueta da categoria a John Ford, por Vinhas da Ira. Foi uma das quatro - recorde absoluto - que o grande Ford recebeu ao longo de sua carreira, sendo as demais por O Delator, Como Era Verde o Meu Vale e Depois do Vendaval. Para se penitenciar com o popular mestre do suspense, a Academia lhe deu um Oscar especial - o Irving Thalberg Memorial -, pelo conjunto da obra, em 1968.

Nos anos 1990, uma pesquisa com 100 diretores de todo o mundo deu na cabeça Hitchcock como o maior e mais influente diretor do cinema. François Truffaut, que também amava Roberto Rossellini e Jean Renoir, tinha Hitchcock entronizado numa espécie de panteão particular. Dedicou-lhe um livro de entrevistas, Hitchcock Truffaut/Le Cinéma Selon Hitchcock, no qual o mestre tem de conter os arroubos do discípulo, que fica o tempo todo tentando convencê-lo de que até seus fracassos, os chamados filmes menores, são obras de gênio. Para Truffaut, Hitchcock constituía um paradigma por ser um raro caso de autor comercial e experimental.

Em 1940, quando chegou a Hollywood contratado por David Selznick, de ...E o Vento Levou, Hitchcock já se estabelecera como diretor de suspense na Inglaterra, com sucessos como O Homem Que Sabia Demais (a primeira versão), Os 39 Degraus e A Dama Oculta. Seu último filme inglês na primeira fase foi A Estalagem Maldita, de 1939, baseado em Daphne du Maurier. Não é dos melhores. Coincidência ou não, o primeiro filme hollywoodiano do diretor, Rebecca, também é uma adaptação da escritora, e desta vez ele foi muito bem-sucedido. Além do Oscar de melhor filme, recebeu também o de melhor fotografia, um suntuoso trabalho em preto e branco de George Barnes. Com o tempo, criou-se um culto a Rebecca. A personagem de Rossy De Palma em Julieta - o belo Almodóvar em cartaz nos cinemas brasileiros - inspira-se na sinistra governanta do clássico hitchcockiano.

Rebecca, de volta numa cópia restaurada, é sobre uma jovem que se casa com nobre inglês e ele a leva para o castelo da família, no qual a governanta mantém intacta a lembrança da primeira esposa, a mulher inesquecível do título brasileiro. Foi o primeiro filme de Hitchcock com Joan Fontaine e pelo seguinte, Suspeita, em 1941, ela recebeu o Oscar de melhor atriz. Laurence Olivier faz o marido, o rude Maxim de Winter, e Joan é consumida pela dúvida sobre seus reais sentimentos. Ele a ama, ou ainda permanece devotado a Rebecca? Ao investigar sobre a falecida, Joan faz descobertas que precipitam uma tragédia. Anos depois, outra autora, Susan Hill, escreveu Mrs. de Winter, imaginando o que teria ocorrido com os personagens de Rebecca após o fim do livro (e do filme).

Mais mistério que suspense, Rebecca constrói um clima soturno - um conto de fadas sombrio - para mostrar como Mrs. Danvers busca exercer sua dominação psicológica sobre a nova Sra. de Winter, que, a propósito, não tem nome, para afastá-la da casa e da vida de Maxim, mantendo o culto a Rebecca. Judith Anderson é poderosa no papel, mas o filme não seria o conto gótico que é sem a fotografia e a trilha de Franz Waxman. Truffaut estava certo. A idade cai bem nas obras que o tempo respeita. Hitchcock evoluiu para um outro cinema, e esse talvez tenha em demasia a marca do produtor. Mas é grande.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.