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'Espaço Além' fala sobre as experiências espirituais da artista no Brasil

(Foto: Divulgação)  - 'Espaço Além' fala sobre as experiências espirituais da artista no Brasil
(Foto: Divulgação)

A artista Marina Abramovic compara o filme Espaço Além - Marina Abramovic no Brasil ao clássico Rashomon (1950), de Akira Kurosawa - ambos testemunham processos de cura. Na obra japonesa, ela diz, sete personagens compartilham suas histórias ao redor de uma fogueira em um bosque. No documentário dirigido pelo brasileiro Marco Del Fiol, com estreia marcada para o dia 19, acompanhamos por 86 minutos a intensa experiência espiritual da sérvia, referência mundial da arte da performance, por terras brasileiras.

No longa-metragem e na coletiva de imprensa realizada ontem, 10, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi de São Paulo, Marina Abramovic conta que precisava curar seu "coração partido" (o marido a havia abandonado por outra mulher) quando planejou fazer uma "viagem maluca" para "lugares de poder" do Brasil - localidades da natureza especiais por suas formações rochosas e cachoeiras, mas também por xamãs e "figuras que faziam o bem para os outros", como o médium João de Deus, internacionalmente conhecido como "John of God", fundador da Casa de Dom Inácio de Loyola em Abadiânia, Goiás.

"Trabalho com performance, uma forma imaterial de arte, que lida com energia, algo que não é tangível, que você tem de sentir", afirmou a artista durante a divulgação do filme. "O Brasil tem uma abundância de conhecimentos antigos e pessoas que detêm esse conhecimento, pessoas com as quais eu poderia aprender a lidar com a energia", explicou a sérvia sobre a motivação de sua jornada, iniciada em 2012.

Espiritualidade é diferente de religiosidade, frisa Marina Abramovic, que começou seu itinerário em Abadiânia. "Estávamos com João de Deus e ele disse que não poderíamos filmar, pois ele é apenas um homem que incorpora 120 espíritos e teria de pedir permissão a eles", diverte-se. "Esperamos até que um belo dia ele veio com um sorriso e disse tudo bem, eles deram o OK".

Na Casa de Dom Inácio de Loyola, a sérvia presenciou cirurgias espirituais. No Riachinho de Zezito Duarte, na Chapada Diamantina, Bahia, a artista experimentou ayahuasca em um ritual xamânico. "Tomei o chá e, depois de 6 minutos, senti como que uma força cósmica varrendo o meu corpo até cair debilitada", conta a sérvia, lembrando das terríveis crises de diarreia e vômito por "17 horas".

Para citar outras passagens de Espaço Além, Marina Abramovic encontrou Dona Flor (Florentina Pereira Dos Santos) em Alto Paraíso, Goiás, conhecedora das plantas medicinais, e Mãe Filhinha (Narcisa Cândido da Conceição), fundadora do terreiro Yemanjá Ogunté e membro da Irmandade da Boa Morte, que morreu em 2014, aos 110 anos, em Cachoeira, Bahia. Por fim, a sérvia, que também esteve em Planaltina (DF), Salvador (BA) e Corinto (MG), faz um ritual de purificação em Curitiba, Paraná, com o fitoterapeuta Rudá Iandê e com a xamã Denise Maia.

"Documentário para mim é vida e vida abarca tudo, principalmente, a subjetividade", afirma Marco Del Fiol. "Me interessa a arte contemporânea ser um território sempre remarcado, em que tudo está em mudança", comenta o diretor, que já realizou filmes sobre artistas como Marepe e Olafur Eliasson.

Espaço Além, que será exibido, por ora, em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Curitiba, acompanha a jornada mística e de "transcendência da dor" de Marina Abramovic, que vai completar 70 anos em 30 de novembro, mas também suas reflexões sobre a arte da performance. Ao mesmo tempo, a obra tem ainda como grande mérito concatenar as experiências da sérvia com o Brasil desde 1989.

Na época, a realizadora de peças históricas veio ao país pela primeira vez "com a missão específica de pesquisar minerais". Os cristais originaram sua série de Objetos Transitórios (expostos para os brasileiros apenas em 2008, na Luciana Brito Galeria). Mais ainda, a mostra Terra Comunal, que a criadora do Método Abramovic e de um instituto dedicado ao gênero performático nos EUA, exibiu, em 2015, no Sesc Pompeia, ajudou-a, diz ela no filme, a definir seu papel como artista de performance hoje".

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.