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Mexicano Álvaro Enrigue avalia criticamente o presente no romance 'Morte Súbita'

(Foto: Divulgação)  - Mexicano Álvaro Enrigue avalia criticamente o presente no romance 'Mor
(Foto: Divulgação)

A literatura é, para o escritor mexicano Álvaro Enrigue, um ato essencialmente político. "Eu me interesso muito pela política, especialmente pelo que ela carrega como lição de história", diz o autor, um dos destaques da 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que começa nesta quarta, 29. Ele falará nesta quinta, 30, ao lado de Marcílio França Castro na mesa intitulada Histórias Naturais.

Um assunto que, se projeta para discussões sobre o passado, na verdade, vai instigá-lo a debater o presente. "Hoje, na América Latina, estamos desesperados por explicações, por encontrar razões que expliquem nossa situação atual."

Álvaro Enrigue vive em Nova York desde 2011, ao lado da mulher, a escritora Valeria Luiselli, também convidada para esta Flip - ambos já moraram nos EUA em outras temporadas. A distância do continente latino lhe permite uma observação privilegiada dos acontecimentos porque está longe do epicentro do calor das discussões.

E, para estimular debates sobre a atualidade mesmo quando focaliza a trama de seus romances no passado, Enrigue parte do princípio da necessidade de o escritor trabalhar como um esteta, buscando a perfeição dos detalhes como fez, por exemplo, o pintor italiano Michelangelo Merisi (1571-1610), mais conhecido como Caravaggio.

É justamente tal artista um dos protagonistas do romance Morte Súbita, agora lançado pela Companhia das Letras. A história começa ao meio-dia de 4 de outubro de 1599, quando Caravaggio se prepara, em Roma, para uma decisiva partida de tênis contra o escritor espanhol Francisco de Quevedo (1580-1645). O jovem italiano de sexualidade fluida que tem simpatia pela marginalidade, pronto para reinventar a pintura além de seus limites e o poeta coxo de uma perna e pés disformes, que se notabiliza tanto pela genialidade de seus versos como pela homofobia e pelo antissemitismo. Duas formas distintas de se viver e fazer arte.

Uma disputa improvável, mas não impossível, para a qual Enrigue segue a premissa de que a literatura pode refrescar a capacidade de entender o mundo quando produz um enfrentamento de ações que não havia ocorrido a ninguém associar. E, com isso, refletir sobre temas passados, mas ainda dolorosamente atuais.

"Partindo de uma imaginária disputa entre dois contrastantes emblemas da Contrarreforma e utilizando-a como fio condutor de uma acronológica viagem no tempo (séculos 16 e 17) e no espaço (Roma-Londres-México), Enrigue constrói um painel virtuosístico da Europa dividida entre duas formas de viver, fazer arte, ciência e praticar o cristianismo - em contraste com o paganismo da Nova Espanha transatlântica", notou, com argúcia, o jornalista Sérgio Augusto em sua coluna no Caderno 2. Sobre a riqueza de sua obra, Enrigue conversou, por telefone, com o jornal O Estado de S. Paulo.

A premissa é um jogo de tênis ocorrido no passado, mas Morte Súbita revela sua inquietação com a realidade, não?

Sem dúvida. Escrevi motivado pela raiva provocada pelo que se passa no mundo hoje, em que malandros e déspotas derrotam homens de bem. Morte Súbita se passa em um momento em que se buscava a modernidade, ao mesmo tempo em que, na Roma daquela época, roubos e assassinatos não escandalizavam, comprovando que a vida humana não tinha muito valor - o que acontece muito hoje. Para isso, estilisticamente preferi personagens que opinassem sobre o que se passa em seu caminho, assim como um narrador que comenta sobre os descobrimentos da época, tudo descortinado para revelar intrigas e negociações.

Caravaggio e Quevedo, aliás, avaliados sob os olhos de hoje, representam a metáfora do fim de uma época.

Sim. Aproveitei uma fase obscura da história de Quevedo para brincar com a data e imaginar essa partida de tênis. Nessa época marcada por um decaído sistema de valores, Caravaggio era uma figura emblemática por suas atitudes libertárias, enquanto Quevedo representava o que estava por vir, ou seja, uma sexualidade reprimida e um catolicismo exacerbado. Em relação às artes, Caravaggio trazia uma expansão sobre tamanho e largura, propondo uma discussão sobre espaços vazios nas pinturas. Já Quevedo era o senhor absoluto do soneto, poeta que tinha compreensão absoluta de seu ofício. Tenho muita admiração pelos dois.

Mas, ao ler seu livro, surge uma desconfiança de uma aproximação maior com Caravaggio, pois ele, como você, revela um grande interesse não apenas pelo produto final, mas também pelo ato da criação.

Sim, você tem razão. Os quadros de Caravaggio são deslumbrantes. O ato de pintar, para ele, demandava muitas explicações e o quadro pronto era também o retrato de um trabalho artístico. Há algo performático na obra dele, procedimentos que nos ensinam. Como escritor, trabalhei, neste livro, na fronteira do romance como gênero, no momento em que somos bombardeados por mensagens pela internet, textos fragmentados. Morte Súbita é, de uma certa forma, minha forma de revelar uma revolta contra isso. Trabalhei muito no ritmo do texto, pesei o valor de cada palavra, enfim, um processo cuidadoso para essa volta ao passado.

Para você, a ficção é uma maneira de se compreender e até enfrentar a realidade?

Com certeza. Ao fixar a história em um ponto do passado, tive mais liberdade para escrever sobre o presente. Cada vez tenho menos fé para explicar o mundo. E hoje, na América Latina, estamos desesperados por explicações, em busca de razões que justifiquem o que se passa ao nosso redor. Por isso que acredito que qualquer escrita é sempre política. É a ficção que desafia nossa forma de encarar a realidade, ainda que não acredite que um escritor deva ser um filósofo ou mesmo um sociólogo - não precisamos explicar a realidade, mas explicar a si mesmo essa realidade com ferramentas literárias.

E o que esperar de Donald Trump presidente?

Algo aterrador. Vivo nos EUA há muitos anos e nunca vi alguém nos castigar por sermos mexicanos. A alma humana é capaz de se renovar e encontrar soluções. Mas tenho quase 50 anos e já vi muitos presidentes perigosos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.