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'O Abraço da Serpente' prega respeito pelas culturas indígenas

(Foto: Divulgação)  - 'O Abraço da Serpente' prega respeito pelas culturas indígenas
(Foto: Divulgação)

Em janeiro, o repórter passou alguns dias na Colômbia - em Cartagena, cidade mítica para os cinéfilos, porque foi lá que Gillo Pontecorvo fez Queimada!, com Marlon Brando, e em Bogotá. Na capital, reestreava O Abraço da Serpente, aureolado pela indicação para o Oscar de filme estrangeiro. Foi preciso comprar o ingresso antecipado. As sessões lotavam e o público aplaudia em cena aberta. De volta ao Brasil, o repórter conversou por telefone com o diretor, que estava em Los Angeles.

O Abraço da Serpente estreia nesta quinta, 25, no Brasil. Ciro Guerra dirigiu filmes como Los Viajes del Viento e La Sombra del Caminante. O primeiro abordava cultura, família, identidade. Era um filme muito pessoal. "Decidi que tinha de fazer algo completamente diferente. Imediatamente pensei na Amazônia. Embora ocupe metade da área do país, a Amazônia é desconhecida dos colombianos. Comecei a pensar no assunto. Descobri os diários do desbravador da Amazônia colombiana e comecei a pensar que seria uma boa história, se achasse o viés certo."

Não o desbravador, mas os desbravadores - o holandês Theodor Koch-Grünberg e o norte-americano Richard Evan-Schultes. Um após o outro percorreram a selva, em diferentes momentos, em busca de uma flor mítica. Pode-se pensar numa jornada tão obsessiva e misteriosa quanto a de Aguirre, em busca do Eldorado, no filme famoso de Werner Herzog, mas Ciro Guerra descarta qualquer influência. Na verdade, se Aguirre teve algum interesse para ele, foi justamente quanto ao que evitar. "Era um ponto de honra fazer o filme fiel ao meu método de sempre, comprometido com a paisagem e os personagens. Sobretudo, não queria ser exótico. Aproximei-me da selva não como uma imensa aventura, mas como um território sagrado."

E foi por isso que Guerra filmou em preto e branco. "Não creio que a cor de um filme pudesse dar conta da beleza e diversidade da Amazônia. Existem infinitas gamas de verde, por causa da luz e da sombra. O preto e branco revelou-se mais adequado. Temia que as cores ficassem vulgares." Respeito pela selva, e pelas culturas indígenas. "A yakruna do filme é uma flor fictícia que soma elementos de várias flores sagradas da Amazônia. E o que me interessava era reproduzir na tela o conflito entre nativos e colonizadores, mesmo que Grünberg e Schultes não fossem predadores, mas exploradores interessados na preservação da cultura local. O problema é que, mesmo com boa vontade, o cristianismo teve um efeito devastador sobre as culturas indígenas."

Uma das cenas aplaudidas quando o repórter reviu o filme na Colômbia - O Abraço da Serente integrou a programação de Cannes no ano passado - é aquela em que a explorador se recusa a trocar a bússola com os índios, convencido de que eles devem permanecer fiéis às suas tradições, orientando-se por meio do céu (e das estrelas). O guia diz que os índios têm o direito de escolher o que querem. Na sala, o público rompeu em aplausos. "O aculturamento é sempre um risco, mas não podemos impedir que as culturas primitivas dialoguem com a modernidade. Seria impossível manter o paraíso intocado. É sempre uma via de mão dupla. Como evitar a dominação, como aproveitar o que o outro lado oferece. Era a ideia, desde o início. Sem esse choque o filme não seria tão autêntico." E o Oscar? "Não creio que vá ganhar, mas está sendo importante para mim e para o cinema colombiano desfrutar essa visibilidade que o prêmio oferece."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.