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O épico 'Intolerância', do diretor David Griffith, completa 100 anos

Pode parecer exagero, mas no Dicionário de Cineastas, Jean Tulard afirma, no verbete dedicado a David Wark Griffith, que se trata, certamente, da figura mais importante do cinema americano e o realizador que mais influenciou o cinema mundial. Pense em Sergei M. Eisenstein, em Orson Welles e outros grandes. Griffith supera a todos pelo simples fato de que, com O Nascimento de Uma Nação, em 1915, ele criou o bê-á-bá da narração cinematográfica. Importante como o filme, decisivo mesmo, sempre sofreu acusações de racismo. Ao adotar o ponto de vista dos sulistas, na sua reconstituição da Guerra Civil nos EUA, Griffith teria feito - fez - um filme contra os negros. Na cena decisiva, os cavaleiros da organização racista KKK salvam a mocinha prestes a ser estuprada pelo ex-escravo.

Para mostrar que não era racista, Griffith fez, a seguir, o épico Intolerância, contando quatro histórias que se desenrolam em diferentes épocas - no mundo moderno, na época de Cristo, na França do século 16 e na antiga Babilônia. Não existe outra conexão entre esses segmentos senão o fato de abordarem a intolerância (religiosa, política, social) ao longo da História. Intolerância estreou em 5 de agosto de 1916 - há exatamente 100 anos. Griffith investiu uma fortuna pessoal na realização - US$ 2 milhões.

Hoje, em valores corrigidos, seriam 100 vezes mais. Bancou-os do próprio bolso. O fracasso do filme levou-o à ruína e ele passou os anos e décadas seguintes pagando dívidas.

Mas a importância do filme é indiscutível. O crítico Danny Peary chega a dizer que Intolerância talvez seja o maior e melhor filme de todos os tempos, do estrito ponto de vista da narração visual. Griffith recriou cada episódio com todo cuidado - cenários, figurinos. Os gigantescos mamutes no templo da Babilônia inspiraram um filme inteiro dos irmãos Taviani, Bom-Dia Babilônia, de 1987, e entre os assistentes estavam futuros diretores como Erich Von Stroheim, Tod Browning e Dick Van Dyke.

Todos aprenderam com Griffith e, na Europa, a influência foi considerável sobre Eisenstein e Carl Theodor Dreyer. Visto hoje em tela grande, Intolerância ainda impressiona pela grandiosidade da montagem, a forma engenhosa como o diretor conduz o olhar do público através de close-ups e planos de conjunto que valorizam os ambientes.

Apesar disso, muitos críticos observam, e têm certa razão, que Griffith só se compromete de verdade na história moderna, em que um casal é brutalmente atingido. Mais que intolerância, é injustiça. O marido é condenado à morte por um crime que não cometeu e a mulher é separada à força de seu bebê. Na trama bíblica, Jesus é perseguido pelos fariseus; na sequência, uma família de huguenotes é morta durante o massacre da noite de São Bartolomeu, em 1572; e durante a queda da Babilônia camponesa tenta salvar o príncipe das tropas do conquistador Ciro. Do elenco, participavam as maiores estrelas da época - Mae Marsh, Constance Talmadge.

O público, porém, que não captava a ligação entre as histórias, desinteressou-se do filme e ele começou a ser cortado para diminuir a duração - originalmente, eram 220 minutos, quase quatro horas. Na França, por exemplo, passou sem o episódio dos huguenotes, mas, até hoje, suspeita-se que foi por censura. As cópias foram sendo reduzidas - 137 min, 129 min, 123 min. O fato é que poucos 'fracassos' foram tão influentes na história do cinema. E, embora endividado, Griffith seguiu filmando. Em 1919, o sucesso de Lírio Partido permitiu-lhe quitar parte da dívida. Fundou com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford a United Artists. Enquanto se produziu, foi grande - um visionário que fez avançar o cinema como gramática e linguagem.