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'O Lobo do Deserto' fala de crianças em zona de guerra

(Foto: Divulgação)  - 'O Lobo do Deserto' fala de crianças em zona de guerra
(Foto: Divulgação)

Há alguns parentescos entre Theeb - Lobo do Deserto e o clássico Lawrence da Arábia. Ambos foram filmados no Wadi Rum, situado no sul da Jordânia. Os dois se enquadram no mesmo tempo histórico, durante a 1.ª Guerra Mundial.

Mas as semelhanças terminam aí. Lawrence da Arábia, de David Lean, é o protótipo do épico, e aposta no suntuoso como linguagem. Theeb, do estreante Naji Abu Nowar, é um antiépico. Trabalha seu enredo em notas mínimas e não grandiloquentes, como seu antecessor.

Na verdade, esse que é um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro começa de maneira muito discreta, até sua trama se adensar e servir de veículo para ilustrar a violência da região. Uma violência que transcende o tempo, o que dá ao filme ares de atualidade, embora se passe há um século. É tão bem-feito que poderia surgir como forte candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro, desbancando O Filho de Saul, já saudado como vencedor. Mas azarões às vezes levam o páreo e, portanto, é bom prestar atenção a esse exemplar raro na cinematografia mundial. Mesmo que não ganhe, o que importa? O filme continua o mesmo e digno de todo o interesse.

Sua história é exemplar. Theeb (Jaci Eid) é apenas um garotinho. Com a morte do pai, quem cuida dele é o irmão mais velho, Hussein, um guia do deserto. Moram num acampamento de beduínos. Quando um inglês precisa de guia para chegar até um poço no deserto, onde tem um determinado encontro, Hussein será escolhido para conduzi-lo. Theeb quer ir junto, apesar do perigo da missão. Dessa forma, acaba por se meter numa aventura de consequências imprevisíveis.

A inteligência da direção está em centrar o ponto de vista narrativo no olhar de Theeb. Num olhar infantil compelido a se tornar adulto de uma hora para outra, até mesmo por questão de sobrevivência. Há uma variante aí - a da infância ultrajada, em especial em regiões desassistidas do planeta. Mas também nas partes mais pobres das nações ditas "civilizadas". São crianças que não têm infância e cedo veem-se forçadas a exercer tarefas ingratas e assumir atitudes do mundo adulto.

É o que, dramaticamente, ocorre em zonas de guerra. Se o filme se situa, historicamente, a um século de distância, parece nos recordar a todo instante que a mesma realidade continua hoje por aí, em determinados lugares e circunstâncias. A verdade é que o garoto Jacir Eid é um verdadeiro achado, ou encontra-se aqui muito bem dirigido. Provavelmente as duas coisas. Só assim se entende que um ator "natural", e criança ainda por cima, seja capaz de transmitir tanto, às vezes sem nada falar, só com o olhar. Atenção: não se trata de um olhar desamparado, de uma criança inocente no meio de lobos. Ou, pelo menos, não se trata apenas disso. Quando Theeb é capturado por um bandido do deserto, este lhe pergunta de quem é filho. O garoto responde e o ladrão comenta: "Um lobo tem filhos lobos".

De modo que Theeb é um garoto forçado ao rápido aprendizado das realidades da vida. E essas, nas circunstâncias descritas, são o convívio com a violência, com armas, com sangue, ferimentos profundos, traições e trapaças. Sobretudo, é entrar no jogo sem regras fixas que elege os mais espertos e dotados para sobreviver.

O estilo adotado pelo diretor é de um realismo sem muito rebuscamento. Nowar explora a paisagem majestosa do deserto, como fizera David Lean a seu tempo. Mas sem o mesmo sentido de estética de inglês. Aqui, a pintura de dunas e oásis ocasionais adquire tonalidade mais austera e funcional. Coloca-se em função da história a ser narrada que, se encerra, não digo uma lição de moral, mas um tema para reflexão no fim, durante o seu desenrolar é bastante movimentada e pouco contemplativa.

Dessa maneira, metaforicamente, assume importância o objeto do viajante inglês que mais chama a atenção do menino, uma misteriosa caixa de madeira. A cada vez que Theeb tenta descobrir o que é, vê-se severamente repreendido pelo europeu. Apenas no fim saberemos o que contém aquela caixa, e o que ela significa para o desenvolvimento da guerra. O aprendiz de lobo mostra reflexos muito rápidos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.