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Renata de Almeida anuncia atrações da 40ª edição da Mostra de SP

Seu filme preferido é... "Rocco e Seus Irmãos", de Luchino Visconti. "Tanto que a Mostra trouxe o filme de volta, no CineSesc", explica Renata de Almeida. Mas ela também gosta de Federico Fellini, Amarcord. "Amo os italianos." E, no escritório da Mostra, Renata aponta o cartaz deste ano, sobre uma ilustração de Marco Bellocchio. É a 40.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a 27.ª de Renata, que começou a trabalhar com Leon Cakoff na 13.ª Mostra. Há 27 anos. Casaram-se, tiveram dois filhos, ela esteve sempre a seu lado. A fiel escudeira. Leon morreu, em 2011, às vésperas da 35.ª Mostra. Renata seguiu em frente. Sozinha? Não. Muita gente trabalha com ela, mas, no limite, as decisões são suas.

Renata recebe a reportagem na sede do evento para falar da mostra deste ano. Serão 300 filmes, 42 espaços de exibição - incluindo 13 CEUs. Foi um ano duro, difícil. Os fiéis patrocinadores não desertaram, mas alguns deram seu aporte muito em cima da hora. A Mostra começa dia 20 - pouco mais de duas semanas. A política tem dado o tom da vida brasileira. A Mostra vai refletir isso. Cartaz e vinheta de Bellocchio, o mais político autor italiano de sua geração. Retrospectiva de Andrzej Wajda. O recorte político vai ser forte, com foco na Polônia. Renata realiza um sonho - traz, restaurada, a integralidade do "Decálogo", de Krzysztof Kieslowski. "Foi o filme que marcou a 13.ª Mostra, na minha estreia." Renata solta o verbo. Com a palavra, a Sra. Mostra.

Já que você admite que o ano foi difícil, vamos lá: qual foi a Mostra mais difícil de todas?

A Mostra não é uma bolha. Reflete o que se passa no Brasil, no mundo. Do ponto de vista financeiro, perdemos uma ou outra parceria. A maioria ficou, alguns diminuíram o aporte. Isso pesa. É duro pensar e realizar um evento desse porte sem saber exatamente o que a gente vai ter, o que vai poder bancar, tendo de ajustar custos. No passado, um patrocinador me deixou com uma dívida de R$ 600 mil, que a Mostra teve de pagar. A 35.ª foi dura. Leon vinha doente, morreu a poucos dias da abertura. Eu sentia uma cobrança, mesmo velada. "Ela vai dar conta?" Confesso que estava meio anestesiada. Levei no susto. E houve a 14.ª, em 1990, ano do Plano Collor. As pessoas estavam revoltadas com o confisco de seu dinheiro. Tudo era mais difícil ainda. E, de alguma forma, as pessoas transferiram sua revolta, seu ódio, para a Mostra. E eu estava chegando. A crise me pegou logo de saída. Tenho prática, não me assusto.

E este ano?

Vai ser uma bela Mostra. O recorte político é muito forte, mas não é só como reflexo do Brasil. Se você tem um cartaz de Bellocchio e homenageia Wajda com uma retrospectiva... A expressão desses caras é política. Bellocchio, convidado a fazer um cartaz, poderia ter enviado um desenho leve. Mas ele fez um desenho envolvendo religiosos, a questão da fé, e punhos erguidos, a revolta dos que protestam. Tem até um Papa e, na seleção italiana, está a série que Paolo Sorrentino fez para a TV dos EUA, The Young Pope, O Jovem Papa. Tudo se junta, não é mera coincidência.

Até que ponto a seleção da Mostra expressa o seu gosto pessoal?

Olha, nos últimos anos, com o desenvolvimento das ferramentas da internet, houve uma mudança muito grande de perfil. Quando a Mostra começou, quando eu comecei na Mostra, não havia internet, não havia link. A gente tinha de viajar, ir aos festivais, correr mundo atrás dos filmes. Foi uma fase muito bacana de descobertas, de fazer amigos. Este ano, tivemos 1.400 inscrições pela rede, fora os filmes convidados. Ninguém consegue ver tanta coisa. Então, é preciso delegar. Têm coisas que vejo e já foram avaliadas. Existem filmes incontornáveis. Não tenho de gostar. Eles têm de estar na Mostra. Mas tudo passa por mim, pelo meu gosto. Amei um filme da Islândia, Heartstone. Uma história de amizade, de iniciação. Um garoto gay, e o amigo dele, que não é gay. Achei o filme maravilhoso. Pelo tema, pela realização, tinha de estar na Mostra. E está.

Muitos amigos da Mostra foram-se neste ano. Manoel de Oliveira foi no ano passado, mas Hector Babenco, Abbas Kiarostami... A Mostra vai lembrá-los?

Vamos ter um filme de João Botelho sobre o Oliveira (O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu), e a segunda metade é um filme mudo, no estilo do Oliveira, muito bonito. Vamos ter o documentário 76 Minutos e 15 Segundos com Kiarostami, de Seifollah Samadia, assistente do Abbas, que o filmou durante muito tempo. Quando Abbas morreu, fez um filme. Contatado, o filho do Abbas fez a ponte para que a gente tivesse esse filme, e também o último curta que o Abbas fez, Me Leve Pra Casa. Babenco ganhou a primeira Mostra com Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia. Vamos apresentar o filme. Não é uma cópia restaurada, não é muito boa, mas é importante esse registro, não só pela época, mas por hoje.

E as homenagens?

A Mostra criou o Prêmio Humanidade, mas não se pode dar um prêmio desses a Quentin Tarantino (risos). Sobra pouca gente com esse perfil humanista. Um Patricio Guzman, um (Andrzej) Wajda. O Prêmio Humanidade pode estar se acabando, então instituímos o Prêmio Leon Cakoff, para durar para sempre, enquanto houver Mostra. Este ano, vamos ter o ator Antônio Pitanga, o Bellocchio e o William Friedkin, uma sugestão do (produtor) Rodrigo Teixeira. Um dia, ele ligou lembrando que são os 45 anos de Operação França, vencedor do Oscar de 1971, e dizendo que o Friedkin poderia vir. Não dava para resistir. Bellocchio vem e ministra uma masterclass, assim como Friedkin.

Já que a 40.ª Mostra vai ter esse perfil bem político, qual será o espaço para reflexão?

A Mostra lutou contra a ditadura, a censura. Essa janela que a gente abre para o entendimento da diversidade do mundo está sempre embasada no desejo de que o público da Mostra reflita, que se abra para o outro. Bellocchio vai falar dos filmes dele, que são muito políticos. E eu quis fazer uma mesa sobre Birth of a Nation, que provocou muita polêmica em Sundance, no começo do ano, por seu tema da inclusão do negro na sociedade norte-americana. É importante trazer essa discussão para o Brasil. Temos muitas mulheres produtoras, nem tantas diretoras, mas o gênero está bem representado no cinema brasileiro. A homenagem ao Pitanga levanta a questão do negro. Pode-se contar uma história do negro, e do cinema brasileiro, só a partir dele. Mas, e os cineastas? Temos o Jefferson De e algum outro, mas ainda falta representatividade. O Jefferson vai estar com a gente, no júri. Vamos incrementar esse debate. Vai ser importante, nesse ano em que temos até uma Miss Brasil negra, e ela, por sinal, é belíssima. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.