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Uma maneira ingênua de se ver o mundo

Bastam poucas cenas no começo de Doce Refúgio para desenhar, para o público, o retrato do personagem do ator e diretor Bruno Polydadès como um homem com a cabeça nas nuvens. Leitor de Saint-Exupéry, seu livro preferido é Voo Noturno, como poderia ser Terra dos Homens. Ele sonha com feitos heroicos, nos primórdios da aviação comercial - ou do correio aéreo -, quando o valor dos homens era colocado à prova no embate entre homens, máquinas (aviões) e a natureza hostil.

Aos 50 anos, Michel (Polydadès) não anda muito confortável com sua vida nem consigo mesmo. No trabalho, o patrão, interpretado pelo irmão de Bruno, Denis Polydadès, propõe uma espécie de jogo sobre palíndromos e Michel topa com a palavra "caiaque". Pesquisando, ele descobre que o caiaque tem a mesma engenharia de um avião primitivo. Sua imaginação começa a delirar e Michel parte, sem mais nem menos, numa viagem de descoberta pelos rios da vida.

Doce Refúgio chama-se Comme Un Avion, Como Um Avião, no original. Em inglês, ficou sendo The Sweet Escape, a Doce Escapada. Os críticos reclamam - acham que a "fuga" de Michel é muito fácil. A mulher aceita que ele caia no mundo, o patrão, idem. E até as mulheres com quem Michel cruza em sua trajetória são compreensivas na sua libidinagem para que ele possa viver suas aventuras sem culpa. A qualidade, ou o defeito, de Doce Refúgio é esse tom assumidamente menor. O filme não pretende ser mais que uma tépida comédia existencial sobre um homem em busca de si mesmo.

Há algo de clownesco, à maneira de Jacques Tati, o M. Hulot, na maneira ingênua, meio distraída com que Michel se põe no mundo. As coisas ocorrem ao seu redor - apesar dele, ou independentemente dele. É simpático, não muito mais que isso. A revista Variety, Bíblia do show biz nos EUA, já comparou Bruno Polydadès a Alexander Payne - com menos humor. O filme é razoavelmente bem feito, Sandrine Kiberlain tem mais talento que a personagem da esposa exige. Agnès Jaoui tira de letra mais uma de suas mulheres libertárias, mas não muito. No limite, dá para ver sem culpa, mas também sem empolgação.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.