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Bolsistas discutem obra de Lina Bardi

(Foto: Divulgação)  - Bolsistas discutem obra de Lina Bardi
(Foto: Divulgação)

Criadora do prédio do Museu de Arte de São Paulo (Masp), a arquiteta brasileira de origem italiana Lina Bo Bardi (1914-1992) tem recebido no Exterior reconhecimento não apenas por seus projetos arquitetônicos como por seu design. Três ganhadores do Lina Bo Bardi Fellowship, uma bolsa instituída pelo British Council para arquitetos e designers baseados na Inglaterra, estiveram na semana passada em São Paulo para visitar a exposição O Impasse do Design, na Casa de Vidro do Morumbi, residência criada pela arquiteta em 1951. Sua obra está sendo estudada pelos bolsistas, que pretendem publicar uma nova edição da revista Habitat, fundada por Lina em 1950.

Esta é a quarta e última edição da bolsa, concedida pela primeira vez em 2013 para Jane Hall, que estudou a ressonância das ideias de Lina no Brasil de hoje. Nesta edição, entre os ganhadores está um brasileiro, Hugo Timm, que mora em Londres e integra junto aos outros dois bolsistas - o italiano Valerio di Lucente e o francês Erwan Lhuissier - a equipe do estúdio londrino de design Julia, criado pela designer italiana Julia Scartozzoni.

"O nome de Lina Bo Bardi, após as exposições internacionais que comemoraram seu centenário de nascimento, está em evidência na Europa, especialmente na Itália", diz o designer Valerio di Lucente, destacando o papel pioneiro da arquiteta em reconhecer a cultura popular brasileira, fazendo convergir os interesses da vanguarda estética para a valorização dos artefatos criados por artesãos.

A exposição O Impasse do Design, aberta até dia 31 na Casa de Vidro, trata desse deslumbramento da arquiteta com a criatividade do povo brasileiro, mostrando como essa influência se manifestou em projetos de mobiliário desenvolvidos por Lina entre 1959 e 1992. A temporada passada em Salvador, entre 1958 e 1964, levou a arquiteta a amalgamar uma experiência moderna de simplificação formal com o artesanato rude dos nordestinos, traduzida tanto na escada de madeira do Solar do Unhão, de 1959, como no mobiliário (especialmente do Sesc Pompeia), em que essa rudeza se expressa de modo nítido.

O curador da mostra, Renato Anelli, destaca justamente essa quebra de espelhos da arquitetura burguesa como um dado que tem atraído a atenção do mundo para a obra de Lina. Na mostra, ele exibe peças que mudaram o rumo do design da arquiteta depois desse contato com o artesanato nordestino. "Ela passou a usar técnicas e materiais simples, ligados ao conceito de seus projetos arquitetônicos", observa Anelli.

Entre os móveis desenhados por Lina, destacam-se na exposição a poltrona Bowl, feita em madeira e couro com pés em ferro pintado e as cadeiras de couro desenhadas para o Museu de Arte Moderna da Bahia, que funcionou no Teatro Castro Alves, antes de ser instalado no Solar do Unhão. Anelli chama a atenção para o texto original que acompanharia a edição do livro Tempos de Grossura: O Design no Impasse, em que Lina recomenda dispensar uma mitologia paternalista para definir o lugar da arte popular fora da esfera folclórica. "Ela teria usado a palavra transe no lugar de impasse, por influência de Glauber, mas depois riscou."

Essa conexão entre as vanguardas artísticas e a arte popular é destacada pelo bolsista brasileiro Hugo Timm: "Os projetos de Lina podem parecer simples, mas são conceitualmente sofisticados". O bolsista francês Erwan Lhuissier concorda e acrescenta: "Ela foi moderna sem abrir mão do artesanato popular, da transformação daquilo que era considerado lixo em objetos reciclados, contestando a produção industrial". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.