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'BR-Trans' vira livro em coleção que já tem mais de 34 mil tiragens

É possível encontrar no fim do século 19 uma das figuras que abre o caminho para o travestismo no Brasil. Aliás, essa manifestação tão característica da vida brasileira passa pelo transformista Darwin - que se apresentava no Cine S. Paulo - e alcança, mais anteriormente, o próprio teatro, quando os atores masculinos se vestiam de personagens femininas porque as mulheres não eram autorizadas a subir ao palco. Essa perspectiva pode ser lida com detalhes na introdução feita pelo jornalista João Silvério Trevisan presente no livro BR-Trans, de Silvero Pereira, que será lançado pela Editora Cobogó nesta segunda, 20, no espaço carioca Casa Rio. No domingo, 19, a peça estreou no Teatro Poeira.

Em São Paulo, a montagem esteve em cartaz no ano passado e retratou o drama vivido por travestis no Brasil. Para construir os relatos, o ator cearense passou seis meses dentro do presídio central de Porto Alegre, na ala destinada a gays e travestis. Foi entre ruas de prostituição e casas de show que Pereira teceu uma dramaturgia com título em alusão a BR-116, rodovia que faz ligação entre a capital do Ceará e a cidade de Jaguarão, no Rio Grande do Sul. A força dramática de Silvero no palco rendeu indicações para os prêmios APTR (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro) por sua atuação e dramaturgia, entre outras premiações. Em 2015, a montagem foi eleita pelo Estado e O Globo uma das 10 melhores peças de teatro do ano. "O monólogo do Silvero é atravessado de outras vozes e apropriações, ele se reveste de todas essas dores e alegrias no palco", diz Isabel Diegues, editora que organiza a coleção.

A obra completa o 34º lançamento da coleção dramaturgia contemporânea da Cobogó, que, desde 2012, passou a acompanhar a produção dramatúrgica brasileira e estrangeira para o palco. Com tiragens que giram em torno de 1 mil e 1,5 mil números para cada título, a coleção já soma mais de 34 mil livros distribuídos por Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Fortaleza e Recife. Ela conta que o objetivo foi tentar apreender a rapidez com que os autores vinham criando suas dramaturgias. "O texto dramático é bastante caro quando percebemos a força de sua oralidade e as questões que esses autores desejam tratar e como tratam", diz. Nesse caso, a palavra "autores" é mais adequada que dramaturgos porque alcança a diversidade dos artistas do palco, como ocorreu no Rio, lembra Isabel.

Ela recorda que a cidade passou (e vem passando) por uma onda de diretores e atores que se puseram a escrever para o palco. Não é para menos. A dramaturgia de Pedro Kosovski para Caranguejo Overdrive, montagem da Aquela Companhia, recebeu prêmio Shell e APTR (Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), além de outras categorias. O grupo dirigido por Marco André Nunes é um dos que Isabel acompanha de perto. Em 2015, a editora publicou o texto Cara de Cavalo, também de Kosovski. "Nós ficamos atentos para montagens que ganham certa vida útil, e passam a circular em outros Estados. Há também textos estrangeiros que são montados aqui", diz Isabel.

Nessa categoria, estão inclusos In On It, A Primeira Vista e Cine Monstro, do canadense Daniel MacIvor, com versão nacional de Enrique Diaz. No ano passado, a coleção ganhou uma seção com dez peças de autores espanhóis, como Angélica Lidell (Cachorro Morto na Lavanderia: Os Fortes) e Josep Maria Miró (O Princípio de Arquimedes). "Isso ajudou a viabilizar parcerias e convites para montagens desses espetáculos aqui", acrescenta.

Nessa trajetória, outras livros ganharam novas edições, em momentos como reestreias, tal qual Conselho de Classe, de Jô Bilac, que ganhou os palcos em 2013 nos comemorativos de 25 anos da Companhia dos Atores, e que agora chega à sua sétima temporada na cidade. Isabel defende que a intenção não é ter as peças em livro, uma vez que são obras distintas. "A dramaturgia contemporânea tem diversos estilos. Por vezes, não se trata de publicarmos o texto da peça, mas discutimos com os artistas qual a fração daquele espetáculo que é texto escrito."

Para encerrar 2016, a Cobogó ainda prevê a publicação dos textos projeto Brasil e Maré, ambos do diretor Márcio Abreu. O primeiro estreou recentemente no Sesc Belenzinho e é recém-chegada de uma temporada na Alemanha, além de cidades brasileiras. A peça é resultado de viagens que a companhia brasileira de teatro fez pelo País. No segundo texto, Abreu se inspirou na chacina policial ocorrida no complexo da Maré. A peça integra o projeto Real: Teatro de Revista Política, da companhia mineira Espanca!.

BR-TRANS

Autor:

Silvero Pereira

Editora: Cobogó (72 págs.; R$ 30). Lançamento nesta segunda-feira, 20, na Casa Rio (R. São João Batista, 105)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.