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Estreia 'Gota d’Água A Seco', adaptação da obra de Chico Buarque

(Foto: Divulgação)  - Estreia 'Gota d’Água A Seco', adaptação da obra de Chico Buarque
(Foto: Divulgação)

Depois do estrondoso sucesso em "Elis - A Musical", em que venceu praticamente todos os prêmios de atuação ao viver com intensidade a grande cantora, a atriz Laila Garin buscou um novo projeto, algo que envolvesse uma menor estrutura mas com idêntica intensidade. O plano se concretizou no início do ano no Rio e chega a São Paulo nessa sexta-feira, dia 9, quando estreia "Gota DÁgua A Seco", no Teatro Faap.

Trata-se de uma adaptação de "Gota DÁgua", musical de Chico Buarque e Paulo Pontes, que estreou em dezembro de 1975, no Teatro Tereza Rachel, no Rio, com Bibi Ferreira à frente. A peça era uma transposição da tragédia grega "Medeia", de Eurípedes, para a realidade de um conjunto habitacional do subúrbio carioca. E a nova versão se chama "A Seco" porque busca chegar à essência da história, concentrada agora nos embates entre apenas os dois protagonistas, Joana e Jasão.

"O texto original possui uma trama política bastante latente em seu embate entre opressores e oprimidos. Ao concentrar a história em Joana e Jasão, em suas ideologias, ações e sentimentos, eu gostaria ainda assim de falar sobre essa política mais essencial da vida, do dia a dia, essa que a maioria das pessoas sublima, esquece ou finge que não é com elas, achando que ser político é somente saber apontar o dedo para o adversário e se manifestar eventualmente por aquilo que interessa, de forma um tanto o quanto individualista", conta Rafael Gomes, diretor da montagem e autor da versão encenada por Laila Garin e Alejandro Claveaux.

O início do projeto apontava para outros caminhos. "Tudo começou quando fui convidada pelo diretor João Falcão e pela produtora Andrea Alves para fazer uma leitura de um concentrado do texto", conta Laila. "Pensávamos, no início, em apenas ter Joana como personagem. Mas João não pode continuar e decidimos chamar Rafael."

O jovem diretor, que assinou uma marcante versão de "O Bonde Chamado Desejo", entre outros projetos, abraçou a ideia, mas fez uma sugestão que foi decisiva: acrescentar Jasão à trama. "Rafael percebeu que, com isso, o drama seria potencializado, haveria uma tensão de fato. Se ficássemos no monólogo, poderia parecer um recital", comenta a atriz.

O resultado elevou a temperatura dramática do espetáculo. Outrora um casal, Joana e Jasão agora brigam depois que ele decidiu se casar com a filha de Creonte, rico proprietário do conjunto de casas onde eles moravam. Isso não apenas abriu um abismo social entre Joana e Jasão como alimentou a dor misturada com ira da mulher agora traída. "Cada personagem tem sua justificativa, o que não deixa a peça se transformar em algo maniqueísta", completa Laila.

Para reforçar o foco no embate do casal, Rafael Gomes decidiu acrescentar outras canções de Chico Buarque que não figuram no original. Músicas que entram justamente para servir à dramaturgia, ao contar partes da história, revelar melhor o caráter e as contradições das personagens, além de amplificar alguns contextos e situações que precisaram ser resumidas. É o caso de Eu Te Amo, Sem Fantasia e Cálice.

Isso permitiu que novas interpretações fossem incorporadas à essas canções. "Cálice", por exemplo, desponta em um monto crucial, quando Joana desabafa desbragadamente contra os atos traidores de Jasão. "Quando foi criada, nos anos 1970, essa música teve um forte cunho político, de protesto. Em nossa versão, ela mantém sua força de desabafo, mas em um contexto mais feminista", observa Laila, que mostra ali a força dramática que a torna uma das principais intérpretes do teatro musical brasileiro.

Ao montar sua versão a seco, Rafael Gomes optou também por acrescentar cenas ao original, novamente com a intenção de fazer prevalecer o embate entre Joana e Jasão. É o caso em que a narrativa é marcada por um flash back: ao som de "Caçada", o espectador acompanha uma dança amorosa. "Achei que era preciso mostrar como eles foram felizes para que a plateia sentisse com mais força a dor da ruptura que veio em seguida", explica o diretor, que contou com o auxílio do diretor musical Pedro Luís nas escolhas.

É uma das poucas cenas com ações coreográficas - Joana e Jasão revelam uma forte atração, mas não se tocam, enquanto se movimentam de forma sinuosa pelo cenário criado por André Cortez. "Eles quase copulam com essas estruturas metálicas", observa Gomes, firme em manter o embate como o conceito de sua montagem. "Jasão vive o conflito entre o que ganha e o que perde, assim como Joana divide-se entre ir às últimas consequências da vingança ou simplesmente seguir vivendo - o embate entre o humano e o divino, o terreno e o espiritual." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

GOTA DÁGUA A SECO

Teatro Faap. Rua Alagoas, 903. Tel. 3662-7233. 6ª e sáb., 21h. Dom., 20h. R$ 80 / R$ 100. Até 18/12. Estreia 9/9