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Gilberto Amendola reúne contos e crônicas escritos a partir dos 30 anos

(Foto: Divulgação)  - Amendola reúne contos e crônicas escritos a partir dos 30 anos
(Foto: Divulgação)

Jeff Tweedy confessa, na sua melancolia rouca, que está tentando quebrar o coração daquela que ele deixou partir. Im Trying to Break Your Heart, faixa de abertura do mais clássico disco de Wilco, acompanhou o jornalista e (por mais que ele resista ao rótulo) escritor Gilberto Amendola em manhãs de escrita intensa. Nos últimos dois anos, antes de retornar ao jornal O Estado de S. Paulo como repórter do caderno Aliás, Amendola acrescentou o exercício de escrever um texto (crônica ou conto) para o blog Não É Você, Sou Eu (hospedado no site Yahoo!), ao cotidiano atribulado da vida jornalística. Tinha, no máximo, uma hora e meia para despejar as palavras, num fluxo contínuo, entre o passeio matinal com o vira-lata simpático Pitoco e a partida para a jornada de trabalho. Wilco e Leonard Cohen eram os preferidos do autor para compor a trilha sonora nos angustiantes e curtos momentos de criação.

O blog deixou de existir em 2016, algo já previsto, e para encerrar uma jornada de nove anos entre esses textos curtos, razoavelmente biográficos, embora nada escancarados, Amendola decidiu reunir uma porção deles em um livro. Nasceu assim Corações de Mentira Não Pagam Aluguel, publicado pela portuguesa Chiado Editora. Ali, reuniu 67 textos, publicados desde sua passagem pelo Jornal da Tarde, a partir de 2007, até a produção mais recente publicada diretamente na rede. A proposta inicial, crônicas sobre a cidade, sugerida pelo diário há nove anos, logo foi adaptada à forma de Amendola encarar a vida - e, principalmente, para desanuviar diante da inevitável chegada na casa dos 30 anos e toda a confusão trazida pela data costumeiramente assustadora. "Fiz muito drama quando completei 30", lembra, rindo, o autor, hoje com quatro décadas de vida. "Fiz 40 agora, já sem muito drama, embora seja horrível ficar velho."

Corações, antecedido por quatro outros livros e seis peças teatrais, encerra a fase das pequenas pílulas cotidianas extraídas "sem carpintaria", como Amendola gosta de brincar. "Agora, eu me livrei deles", diz, jocoso. O novo projeto, o blog Desculpe, Foi Engano, é um exercício de desenvolvimento de narrativa na qual uma história será contada aos poucos, com cada capítulo publicado às quintas-feiras, no portal Estadão.

A prática da escrita, de início quinzenalmente, mas que chegou a ter uma frequência de três textos publicados por semana, colocou pontos nos is na própria vida do jornalista, enquanto ele travestia as histórias dele ou daqueles próximos a ele em temas mais universais. "Esses textos me ajudaram muito, mesmo", ele admite.

"Inevitavelmente, alguns deles são conversas que tinha comigo. E temos muitos amigos nessa mesma idade. Perceber os 30 é se dar conta da chegada ao meio da vida. Não existem mais planos de longo prazo. Agora, são decisões a médio prazo." Alguns textos nasceram dessas questões, enquanto outros jorravam por intermédio de pequenos incentivos externos. A história As Balas Juquinha Daquele Amor nasceu justamente com a notícia de que a fábrica dos famosos doces iria fechar. Há ainda alguns textos temáticos, sobre o fim do Orkut ou reflexões a respeito do Natal.

Amendola reúne seus textos em cinco grandes categorias no projeto de criar uma linha condutora narrativa, distante da ideia de alguma cronologia. São elas: Não é Você, Sou Eu; Duas ou Três Coisas Sobre Ela; Separações; A Personagem Preferida; e Como Escrever um Best-Seller. Até neles é possível perceber a ironia e os pequenos toques de desencanto que transbordam das linhas fluidas escritas pelo autor.

Inevitavelmente, os textos de Amendola se refletem nos outros, os leitores, mesmo quando diz mais sobre si. Como no texto Se Meu Apartamento Falasse, que nada mais é do que a descrição da mesa na qual escrevia aquelas palavras - quem não tem uma mesa bagunçada e cheia de lembranças para chamar de sua? É a melancolia dos corações partidos que une autor e leitores. Que junta, no mesmo bolo, Amendola, nós mesmos e, por que não, Jeff Tweedy.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.