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'Inútil a Chuva' trata dos encontros familiares quando some o patriarca

A mãe, como timoneira, comanda o ritmo preciso e sincronizado dos três filhos, que conduzem seus remos. A cena, belíssima em sua composição de luz e cenografia, abre a peça Inútil a Chuva, nova montagem do Armazém Companhia de Teatro, que estreia nesta quinta, 2, no Sesc Bom Retiro. Engana-se, porém, quem acreditar que a sincronicidade exigida pelo esporte é um sinal de estabilidade espiritual naquela família - "O pai é quem costumava ser o timoneiro e agora Lotta, a mãe, não está acostumada com essa função", conta Paulo de Moraes, diretor da peça e também um dos autores, ao lado do filho João Paulo, o Jopa.

As deformidades na alma provocadas pela ausência paterna é um dos temas que marcam Inútil a Chuva, espetáculo que trata também da perversidade do mercado de obras visuais. O pai daquela família é um pintor que, antes de desaparecer, deixou uma carta anunciando que se suicidaria no dia seguinte. Instala-se o mistério: como o corpo não é encontrado, não se sabe se ele realmente morreu ou se simplesmente desapareceu.

O sumiço, no entanto, serve para alimentar o mercado da pintura e, em pouco tempo, suas obras, então desconhecidas, tornam-se valiosíssimas. Assim, gira em torno desse homem o relacionamento entre Lotta (Patrícia Selonk) e seus filhos Slavoj (Leonardo Hinckel), o mais velho e o mais atormentado pela figura paterna; Claude (Tomás Braune), performer que tenta estraçalhar a fama do pai mas, ao mesmo tempo, é o que busca mais se aproximar dele; e a caçula Sarah (Andressa Lameu), que vive em busca de si mesma.

Além deles, há ainda outros dois personagens - Matthias (Marcos Martins), professor de matemática, amante do boxe e melhor amigo do desaparecido, sujeito original que busca explicações da vida por meio de equações e fórmulas, exibindo uma rara capacidade de viajar por números imaginários; e Vivian (Amanda Mirasci), jornalista, ex-correspondente de guerra, que surge na história incumbida de fazer uma reportagem sobre o misterioso desaparecimento do agora famoso pintor. Aos poucos, revela-se uma mulher que busca, na verdade, desmerecer a fama do desaparecido.

"Em todos os casos, são pessoas extravagantes, que até então pouco se conheciam ou se relacionavam e que, a partir do sumiço do pintor, tentam se descobrir", conta Paulo de Moraes. A peça forma-se com a união de oito momentos, a começar pela mãe comandando os filhos no remo. São como oito quadros pintados pelo pai, que reproduzem os personagens fornecendo detalhes sobre a vida do artista. Não são peças de um quebra-cabeça, que estaria montado ao final da última cena, mas pistas que ajudam o espectador a construir sua própria imagem daquele homem ausente, mas extremamente importante.

Moraes conta que não foi intenção dele e do filho Jopa criar cenas em que, num determinado momento, ficasse evidente para o público a reprodução de um quadro, com figuras estáticas. "Aos poucos, durante o processo de ensaio, descobrimos o exato instante que seria a reprodução de um quadro, mas preferimos que isso fosse um segredo nosso, sem a necessidade de torná-lo evidente."

A construção dramatúrgica de Inútil a Chuva foi a primeira parceira de Paulo de Moraes com o filho, de 21 anos - habitualmente, o diretor escreve com Maurício Arruda Mendonça. Foi um momento particular. "Pela primeira vez, trabalhei com alguém de outra geração", conta Moraes. "Foi ótimo pois, do conflito de ideias, surgiram soluções que talvez eu e Maurício não pensaríamos."

O título da peça, por exemplo, nasceu depois de um embate de sugestões e se baseia em um haicai de Jack Kerouac ("Inútil! Inútil! / A forte chuva / Mergulha no mar"), um infrutífero lamento do homem diante da força imbatível da natureza. E, ao transportar a ideia para o espetáculo, o público descobre uma peça formada por encontros de pessoas que buscam explicações - na verdade, são visões distintas de um naufrágio que não se sabe se de fato ocorreu.

"Com esse texto, mantemos uma ligação temática com nossa montagem anterior, O Dia em que Sam Morreu, que tratava dos limites éticos entre os profissionais da saúde", observa o encenador. "Agora, a discussão da ética está na forma como funciona o mercado das artes visuais: qual o sentido da arte quando essa arte não deve nada a ninguém?" As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.