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Montagem russa da ópera 'Lady Macbeth' estreia nesta terça no Municipal

O Teatro Municipal promove nesta terça, 12, a estreia de uma produção da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Dmitri Shostakovich. A montagem, original do Teatro Helikon, de Moscou, é composta por artistas russos, como o diretor Dmitry Berman e o maestro, que comanda a Orquestra Sinfônica Municipal. No papel título, revezam-se as sopranos Elena Mikhaylenko e Anna Pegova.

Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk é uma das principais criações do século 20. Mas sua importância histórica não se limita à qualidade de texto e música: estreada em 1934, ela foi condenada dois anos mais tarde pelo regime soviético. Tornou-se, assim, símbolo da relação nem sempre fácil entre arte e política. A ponto de, como afirma, o diretor Berman, essa ter sido a chave segundo a qual a obra foi lida durante muito tempo. "Lady Macbeth incorporou os paradoxos e a crueldade de uma época, mas sobreviveu pela força dos personagens. Nela, há ideias muito pessoais, que falam diretamente a qualquer ser humano. E, nesse sentido, os eventos dos anos 1930 hoje soam como um pesadelo, e a ópera pode gozar de enorme popularidade", diz.

Baseada em texto de Nikolai Leskov, a obra narra a história de Katerina, uma mulher que vive no campo, casada com o comerciante Zinovy. Ela, no entanto, se apaixona por um dos funcionários de seu marido, Sergey. Para ficarem juntos, os dois acabam matando Zinovy e seu pai. Acabam presos. E, no trem a caminho da Sibéria, Katerina acaba matando a nova amante de Sergey, morrendo em seguida. "Amor e desespero, traição, crueldade e paixão, um duplo assassinato, infidelidade. O libreto era o exato oposto dos ideais da arte socialista, bastante politizada", lembra Berman.

Mas boa parte do alvo da crítica oficial dizia respeito, na verdade, à música de Shostakovich. "Desde o primeiro minuto, o ouvinte fica chocado com a deliberada dissonância, pelo confuso confluir dos sons. Trechos de melodia, os começos de uma frase musical, são afogados, tornam a emergir, e desaparecem num ronco de rangidos e guinchos. Essa música é construída sobre uma base de rejeição da ópera. O poder que a boa música tem de contagiar as massas foi sacrificado a uma tentativa pequeno-burguesa, formalista, de criar originalidade por meio de um histrionismo barato. É um jogo de engenhosa ingenuidade que pode acabar muito mal", dizia o hoje célebre editorial "Confusão em vez de música", publicado no Pravda dois dias após uma apresentação em Moscou, em 1936, assistida por Stalin.

Há quem diga que foi o próprio Stalin o autor do texto. Não há como ter certeza, mas é certo que o artigo reproduzia suas opiniões a respeito da partitura. E significou uma mudança gigantesca na trajetória do compositor, que teve estreias e encomendas de obras canceladas, viu sua ópera ser banida dos palcos e só seria reabilitado com a composição da Sinfonia n.º 5, que foi vista pelo regime como simbólica do "caráter soviética", ainda que, ao longo das décadas, não foram poucos os críticos a ver nela uma crítica velada e repleta de ironia à interferência da política na arte.

Lady Macbeth já ganhou, no Brasil, uma elogiada montagem, em 2007, no Festival Amazonas de Ópera, com a soprano Eliane Coelho como Katerina e o direção de Caetano Vilela, que utilizou a repressão como um dos pontos de partida para a sua concepção. Em São Paulo, por sua vez, Berman diz preferir uma montagem mais abstrata. "O tema aqui são as paixões humanas. Não importa se os eventos aconteceram na Rússia do século 19 ou nos anos 1990, afinal a história tem o hábito de se repetir. Shostakovich disse que esta é uma ópera sobre o amor, sobre o tipo de amor que existe em um mundo tão repleto de vilania. Por isso, fizemos dessa montagem uma narrativa sobre a psicologia humana em uma situação extrema." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.