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'Pão e pedra' encena a fé cultivada na fábrica

Em 16 de novembro de 1965, cerca de 40 padres assinaram o famoso Pacto das Catacumbas, documento que visava o comprometimento dos bispos a uma vida de pobreza e a promoção dos pobres no centro da vida pastoral. Na lista de signatários a maioria era de clérigos de países latino-americanos. O Brasil participava com oito padres, entre eles dom Hélder Câmara (1909-1999), o único brasileiro indicado quatro vezes para o Prêmio Nobel da Paz.

A iniciativa abriu as perspectivas para a chamada Teologia da Libertação no Brasil, corrente política aliada aos movimentos sociais. "Era comum ver padres ajudando a montar piquetes na greve de metalúrgicos do ABC", recorda o diretor da companhia do Latão, Sergio de Carvalho, que estreia nesta sexta, 13, o espetáculo Pão e Pedra.

A montagem vai relembrar a complexidade da paralisação, que chegou a promover assembleias com mais de 70 mil trabalhadores, realizadas no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo. Em 1978 já havia ocorrido um protesto, mas organizados apenas pelos metalúrgicos. "O sindicato ainda não tinha percebido essa movimentação", diz o diretor. No ano seguinte, momento narrado no espetáculo, as greves foram absorvidas pelos líderes sindicalistas e amparadas pela ala progressista da Igreja. "Antes de começarem as assembleias, todos rezavam o Pai-Nosso. Os ideais da religião ajudaram a dar suporte aos trabalhadores."

Segundo Carvalho, o movimento estudantil engrossou a greve. "Foi a primeira vez que o Brasil parou para olhar a causa dos trabalhadores." Na peça, essas três alas estão representadas com personagens fictícias. Por outro lado, eles também passam por metamorfoses internas, como uma mulher que deseja ganhar mais dinheiro e, para tanto, se veste de homem; ou o padre que misturava seus deveres sagrados com os atos rebeldes de construir piquetes na porta das fábricas e de ajudar a esconder líderes do sindicato procurados pela polícia. "São as complexidades de qualquer processo de transformação."

Em contraste com a cena política atual, Carvalho defende que havia uma efetiva participação popular nas greves do ABC. "Hoje, não fazemos parte dessas negociações, que mais se parecem intrigas shakespearianas."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.