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Peça 'O Homem Elefante' traz história já contada por David Linch no cinema

Apesar de ter morrido em 1890, o corpo de Joseph Merrick não teve a oportunidade de descansar, como é o desejo de um cristão comum e como reivindica uma associação criada em sua homenagem. Seu esqueleto afetado pela síndrome de Proteus - doença que causa crescimento exagerado de tumores sob a pele - está guardado em um espaço destino a pesquisa na Universidade de Queen Mary, em Londres. São por esses meandros da fé e da ciência que os mineiros da companhia aberta estreiam O Homem Elefante, neste sábado, 3, no Centro Compartilhado de Criação.

Diante de tantas particularidades, a peça de Bernard Pomerance busca enxergar, através da exploração e preconceito, a humanidade saudável de Merrick. É o que explica o ator Vandré Silveira, que interpreta o personagem-título. "O que temos é o horror comum a tudo o que é diferente."

Nascido na era vitoriana, tida como ápice do circo britânico, o jovem Merrick é atração em shows de aberrações. Na Broadway, atores como David Schofield (1977), David Bowie (1980) e Bradley Cooper (2014) já viveram o papel-título.

No cinema, David Lynch adaptou a obra em 1980, com John Hurt no elenco.

Na montagem dirigida por Cibele Forjaz e Wagner Antonio, cria-se um primeiro palco que abriga o show. "Há um tom espetacular nesse momento, com o uso de máscaras, fantasias e acessórios que escondem o personagem", diz Antonio. A transição ocorre por conta da própria narrativa. Merrick é acolhido pelo jovem médico Dr. Treves (David de Carvalho) no hospital que mais tarde se tornaria a universidade onde os ossos de Merrick estão depositados. Aqui o cenário é sóbrio e imaculado. Merrick também está despido de suas fantasias e mantém a aparência original que provoca horror e curiosidade na população. Isso não quer dizer que a exploração de sua imagem termine. "O médico se encanta com a chance de poder estudar uma doença tão rara, mas também permite que Merrick frequente a aristocracia", explica Carvalho. Em uma cena, um empregado do hospital, vivido por Daniel Carvalho de Lima, passa a fotografar o homem, a fim de expô-lo para a família.

Na concepção desse corpo inflamado e de esqueleto disforme, o desafio de Silveira está na sustentação de posições não naturais para ele, como a de mãos e pernas retorcidas. Ele conta que, ao longo da temporada no Rio, precisou ser acompanhado por um osteopata. "Meu cérebro passou a aceitar aquela posição como um hábito e, muitas vezes, depois que a peça acaba, percebo que estou repetindo algum movimento."

O trânsito entre o show de horrores e o hospital cria um terceiro espaço, destinado à plateia. A ideia é alvejar a maneira como convivemos com o que é "normal" e "diferente". "Antes de tudo, precisamos questionar essa tal normalidade", anuncia Silveira. "É o caso comum de pessoas que dizem não ter nada contra gays, mas que não aceitariam ver um casal se beijando em público. Ou que dizem que um gay não deve se comportar como um gay. É uma tentativa de domesticar o que os outros são."

Na peça, a essência de Merrick é bombardeada também pela fé. Cristão convicto, o homem mantinha a sua crença diante de uma Igreja que julga que a ira divina estivesse punindo-o por algum pecado. "São violências praticadas em nome da fé e do preconceito", conta a atriz Regina França.

O HOMEM ELEFANTE

Centro Compartilhado de Criação. R. James Holland, 57, 3392-7485. 5ª a sáb., 21h; dom., 18h. R$ 10/ R$ 20. Estreia sáb. (3). Até 3/10.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.