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'Projeto: Brasil, o Futuro Que Nunca Chega' revê o período de escravidão

(Foto: Divulgação)  - 'Projeto: Brasil, o Futuro Que Nunca Chega' revê o período de escravidão
(Foto: Divulgação)

Mais do que tentar apaziguar a relação dos negros com os brancos no Brasil Colonial, Gilberto Freyre tentou conceber um sistema de algo que só aconteceria aqui. Em Casa-Grande e Senzala (1933), ele dispõe em contraste o País com o sul dos EUA, que teve leis duras de segregação. O Brasil, portanto, seria o berço da inédita democracia racial, um palco para coexistência pacífica e produtiva entre negros e brancos. "Isso é bem diferente de políticas afirmativas", ressalta o ator Rogério Brito, que integra o elenco do Projeto: Brasil, O Futuro que Nunca Chega, em cartaz no Sesc Consolação.

Na peça Princesa Isabel, ele interpreta um amigo próximo da realeza e é testemunha da assinatura da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão em 1888. Brito é negro e avalia que o ato não obteve o sucesso esperado no País. "Meu personagem tem certa liberdade para falar com a princesa e ele tenta mostrar a ela o seu ponto de vista. Mas a assinatura do documento não incluía coisas como oferta de terras, nem qualquer espaço para que os negros, agora livres, pudessem viver. Isso seria o que chamamos de políticas afirmativas, atualmente", ressalta o ator, que também está no elenco de Escrava Mãe, novela da TV Record.

O projeto concebido por Samir Yazbek com a Cia Teatral Arnesto Nos Convidou pretende olhar para trás e repassar a limpo o momento histórico do Brasil e o mito de que a Princesa Isabel "foi uma grande salvadora". A assinatura do documento tem um efeito no Império e havia um interesse claro nisso", afirma o dramaturgo e diretor. Ele conta que a montagem assume uma intenção de olhar para o passado. "Queremos reverberar o assunto e as figuras que ainda estão presentes."

Para Yazbek, as personagens estão carregadas de contradição, tal qual Conde DEu, marido da princesa e o filho de uma escrava alforriada. "É aí que reside esse futuro que nunca chega. Uma construção social que parece congelada no tempo, mas com a qual podemos, e devemos, interagir. É preciso reconhecer a origem dos problemas para começarmos a nos livrar deles." Para Brito, apesar das diferenças de época, a comunidade negra continua sofrendo com a ausência de avanços. "Se a gente for desenrolar, a assinatura da Lei Áurea é o ponto de partida. Foi necessário, mas por outro lado foi apenas meio passo dado. Nós tivemos que nos virar, isso revela a grande presença de negros morando em favelas", enfatiza ainda.

A montagem que completa o projeto se chama D. Pedro II e vai na contramão do olhar recuado de Princesa Isabel. A peça está centrada na história de um repórter de ascendência libanesa, em crise com seu trabalho, e de um cinegrafista negro, seu parceiro de trabalho interpretado por Brito. A ambientação contemporânea serve de lente para que os jovens profissionais reflitam sobre os casos de racismo e xenofobia. Se o racismo oprime o cinegrafista, a figura de um rapaz neofascista surge no palco para aumentar o desejo do repórter de defender suas raízes. Mas isso também pode revelar seu próprio racismo entranhado. "O repórter não compreende que racismo e xenofobia podem ser coisas iguais. O meu personagem é muito mais bem resolvido do que eu", atalha Brito. "Ele não se deixa desmoronar. Eu não consigo isso. É difícil acordar e viver num mundo desse", reflete também.

A peça também é atravessada pela própria figura de D. Pedro II, em uma interpretação cômica de Helio Cicero. "É uma representação jocosa da figura do imperador, que era bastante racista, a partir do nosso olhar", defende. O cenário de André Cortez cria uma estrutura de metal que gira no meio do palco. À medida que o repórter olha para a própria origem, novos quadros surgem, e invocam as lembranças da formação cultural brasileira. Na época, o imperador abriu o Brasil para refugiados libaneses que enfrentavam uma crise econômica e política em seu país. Yazbek, que é descendente de libaneses, defende que o mesmo panorama não confere com a realidade do mundo atual. "Esse impasse de hoje solicita outro tipo de abordagem, mais coletiva, na medida em que as fronteiras da maioria dos países, por mais que muitos não gostem, estejam permanentemente abertas."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.