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Roberto Alvim dirige versão teatral de 'Leite Derramado', de Chico Buarque

(Foto: Divulgação/Estadão)  - Roberto Alvim dirige versão teatral de 'Leite Derramado'
(Foto: Divulgação/Estadão)

A entrada em cena da atriz Juliana Galdino provoca um forte impacto - cabelos grisalhos, feições rústicas e esbranquiçadas pela maquiagem, ela (em mais um grande desempenho) vive Eulálio, oligarca centenário que, à beira da morte, reflete sobre a própria existência, marcada pelo avô, um latifundiário escravagista, e pelo pai, senador corrupto. "Eulálio corporifica mais de 200 anos de história do Brasil, marcada por racismo e corrupção", comenta Roberto Alvim, que adaptou e dirige a versão teatral de Leite Derramado, que estreia sexta-feira, 14, no Sesc Consolação. "Enquanto agoniza no hospital, ele se descobre vítima da própria trajetória, criada, ao longo de anos, por sua própria classe social.

"Trata-se da primeira adaptação para o palco de um romance de Chico Buarque de Holanda. Publicado em 2009, Leite Derramado reproduz o monólogo de um homem muito velho, que está no leito de um hospital. Dirigida à filha e às enfermeiras, a fala desarticulada do ancião cria dúvidas e suspenses e é por meio desse labirinto que Alvim retrabalhou o texto original, transformando-o em um espetáculo para 8 atores, além de música original criada pelo filósofo Vladimir Safatle.

"O livro traz uma leitura do inconsciente do nosso País", argumenta Alvim, que trabalhou em oito versões até atingir o formato que considerou ideal. "A mais recente é uma adaptação cênica dessa inconsciência, o que me permitiu chegar às forças subterrâneas que constroem o Brasil. Cheguei a uma versão sintética, uma espécie de haicai do romance."

O encenador conta que recebeu carta branca do romancista para explorar os simbolismos do livro. "Em nossas conversas, mostrei a Chico certas camadas do texto que nem ele tinha percebido", observa Alvim que, depois de uma troca de telefonemas, conseguiu o consentimento do autor para transpor a obra para o teatro. No primeiro encontro, ele levou um esboço com 18 páginas que continha seu projeto de adaptação. Segundo ele, Chico gostou da forma com que pretendia retrabalhar o ethos nacional de uma forma diferente do que fizeram outros. "Mostrei a ele que pretendia trabalhar o nosso tempo a partir do delírio do velho Eulálio." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.