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'Tróilo e Créssida' fala de moral com muita acidez

(Foto: Divulgação) - 'Tróilo e Créssida' fala de moral com muita acidez
(Foto: Divulgação)

A famosa frase "ser ou não ser, eis a questão" já correu pelos teatros dos quatro cantos do mundo. O mesmo não ocorreu com Tróilo e Créssida, texto contemporâneo de Hamlet. Supostamente escrito após a tragédia do príncipe dinamarquês, essa comédia de William Shakespeare ainda segue inédita no Brasil, segundo o ator Erike Busoni, integrante da Cia da Matilde. Depois de circular por cidades do interior, a montagem tem direção de Bete Dorgam e está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso. A peça já foi citada pela crítica de teatro Barbara Heliodora como o texto do Bardo que mais se parece com o Brasil.

Ambientada durante a guerra de Tróia, o espetáculo coloca as personagens sob o cerco de seus próprios pecados. Nela, Tróilo é um dos filhos do rei Príamo e se apaixona pela grega Créssida, filha do sacerdote Calcas, um traidor que passou para o lado dos gregos após profetizar a derrota de Troia. Até aí, apenas mais um retrato comum de amor impossível, como em Romeu e Julieta. "O sentimento que Tróilo sente por Créssida é cheio de equívocos, assim como a maneira que o rapaz idealiza a guerra", diz Bete. "São pessoas que se renderam a uma insensibilidade causada pela combate. Eles desejam amar, mas o sentimento fica pequeno diante de coisas mais obscuras, como a vingança e a cobiça."

Para além de tanto desencontro, o campo de batalha também está cheio de heróis com a reputação manchada. A morte de Heitor pelas mãos de Aquiles é o primeiro sinal da decadência desses paladinos. "Shakespeare demonstra que os assuntos da guerra são fúteis. São preocupações que invocam o que há de mais sombrio nas pessoas. E não há um só sentimento de generosidade para mudar isso", aponta a diretora.

A sucessão de cenas trágicas e cenas cômicas é um dos desafios de compreender o estilo da obra. Busoni aponta que a peça é considerada a mais difícil dentre as criações de Shakespeare. "Muitos críticos já falaram que é a obra menos inspiradora escrita por ele. Além disso, o tom das falas e o tempo em que ocorre a história criam muitas dificuldades quando se leva a peça para o palco." Para Bete, o texto se configura como uma comédia satírica, já que ridiculariza o amor romântico e a figura irretocável dos heróis. Na encenação, um caminho possível foi explorar as faces do teatro de bufão, com suas figuras cômicas e exageradas. "Percebemos que o tom irônico e ácido encontra suporte nesses palhaços grotescos. São seres sem qualquer moral e que riem de quem acham que é nobre", diz Bete.

Para a criação dos figurinos, assinados por Claudia Schapira, o lugar em que a história se desenrola se tornou objeto de inspiração. Bete conta que a intenção foi criar modelos que se correlacionassem de maneira mais atemporal. "Elas trazem uma certa simplicidade muito interessante, em cores que simulam as bandeiras da Grécia, bem como da Turquia, já que Troia se localizava naquelas imediações." Com a trilha sonora executada ao vivo, o plano foi trazer composições que comentassem as cenas. "Não queríamos apenas música para acompanhar ou ilustrar o que acontecia no palco. O perfil dos personagens nos influenciou com o som de diferentes ritmos, da música brasileira ao rock", conta a diretora.

O cuidado com detalhes serviu para reforçar a segurança diante da apresentação de um dos textos menos conhecidos de Shakespeare. "A peça fala muito de corrupção, um tema vigente para nós." O espetáculo integra o Projeto 39, uma grande missão da Cia da Matilde de montar todos os textos do Bardo. O grupo já visitou o drama histórico de Ricardo III, em 2013, e no ano seguinte foi a vez da comédia Os Dois Cavaleiros de Verona, com direção de Kleber Montanheiro.

A companhia ainda não decidiu o que virá depois de Tróilo e Créssida. "Olhamos entre as obras mais interessante, mas estamos apostando em mergulhar em uma tragédia", conta Busoni.

A previsão é que a jornada rumos às 39 ganhe nova montagem a partir do ano que vem.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.