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Trump assusta, mas não estraga a abertura da Art Basel Miami Beach

SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL

MIAMI, EUA (FOLHAPRESS) - Mais calma, a abertura da Art Basel Miami Beach, a maior feira de arte dos Estados Unidos e a mais importante do mundo para o mercado latino-americano, não teve o tradicional estouro da boiada nas primeiras horas, com colecionadores se estapeando para chegar primeiro aos estandes das 269 galerias que fincam pé no balneário mais kitsch e sedutor do planeta.

Em seu 15° ano, a feira que transformou a cidade à beira-mar numa das capitais mais pujantes das artes plásticas enfrentou dois fantasmas. A eleição de Donald Trump amargou os ânimos e detonou uma onda de nervosismo entre os colecionadores, preocupados com a instabilidade econômica que deve marcar o início do mandato do novo presidente. Outro fator foi a aparição do vírus da zika -desde julho autoridades sanitárias locais recomendam não viajar a Miami, e muitos possíveis clientes não deram as caras.

"Este tem sido um ano estranho", disse Marc Spiegler, diretor das feiras Art Basel, minutos antes do vernissage. "Estamos lidando com questões de saúde e transições políticas inesperadas não só aqui mas também no resto do mundo, como aconteceu com o governo do Brasil e o 'brexit', por exemplo. Mas em tempos difíceis artistas fazem suas melhores obras."

De fato, a seleção desta que é uma das feiras mais rigorosas na escolha de galerias não deixa a desejar. E muitas obras lidam com assuntos frescos e assustadores do noticiário. Renata Lucas, por exemplo, criou uma escultura de ladrilhos e jornais do dia da eleição de Trump.

A galeria A Gentil Carioca, que vende o trabalho de Lucas, aliás, é uma das 16 casas brasileiras nesta edição da feira, uma presença recorde para o país. Marcio Botner, um dos sócios da Gentil, também está no comitê de seleção da Art Basel Miami Beach e conta que este ano a presença latino-americana reponde por cerca de 20% da feira.

Mesmo fora das galerias brasileiras, artistas do país têm forte presença. A Luhring Augustine, de Nova York, levou trabalhos de Willys de Castro, um "Bicho", de Lygia Clark, de US$ 3 milhões, e uma escultura de Tunga ao evento. A Alison Jacques, de Londres, também tinha peças de Clark e obras de Erika Verzutti, destaque da atual Bienal de São Paulo.

Nas primeiras horas do evento, as paulistanas Millan, Vermelho, Fortes, D'Aloia & Gabriel e Mendes Wood DM venderam trabalhos de Miguel Rio Branco, Ana Prata, Marcelo Moscheta, Mauro Restiffe, da dupla cubana Los Carpinteros, entre outros.

Levando uma seleção de peso, com um dos melhores estandes da feira, a Vermelho ainda negociava nas primeiras horas do evento um trabalho monumental, de quase cinco metros de largura, de Ana Maria Tavares, uma impressão metálica de um de seus desenhos inspirados nos "Cárceres" de Piranesi -a série está também em sua retrospectiva na Pinacoteca.

Essas vendas-relâmpago, aliás, refletem o aumento exponencial de exportação de obras brasileiras para o exterior, compensando a calmaria no mercado nacional que ainda sofre para contornar a crise econômica.

Em Miami, fora a ressaca da eleição de Trump, que entristeceu a classe artística, e um suposto surto de zyka, o sol brilha forte, a brisa é suave e vendas não decepcionaram até o momento. Além da Art Basel Miami Beach, outras 20 feiras pegam carona no evento principal, e museus reservam suas melhores mostras para a época.