21°
Máx
17°
Min

Verissimo festeja 80 anos com 'Verissimas' e o infantil 'As Gêmeas de Moscou'

(Foto: Divulgação) - Verissimo festeja 80 anos com 'Verissimas' e livro infantil
(Foto: Divulgação)

A modéstia é uma das qualidades de Luis Fernando Verissimo, colunista do Caderno 2 e um dos escritores mais admirados do País. Mas uma recente descoberta o obrigou a mudar de atitude: ao assistir ao mais recente filme de Woody Allen, Café Society, Verissimo surpreendeu-se quando um dos personagens disse algo assim: "O ideal é viver cada dia como se fosse o último - um dia, você acerta". "Eu disse ou escrevi essa frase há algum tempo. Quem diria, Woody Allen me plagiando", diverte-se ele, uma das raras unanimidades positivas do Brasil.

Ninguém duvida de sua capacidade criativa, mas, àqueles que só acreditam vendo, basta folhear Verissimas (Objetiva), coleção de cerca de 800 verbetes organizados em ordem alfabética e que trazem comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético. O lançamento da coletânea marca a comemoração dos 80 anos de Verissimo, que serão festejados na segunda-feira, 26. A cereja do bolo será a chegada, em outubro, de As Gêmeas de Moscou, obra que marca sua estreia como autor para o público infantil.

Verissimas tem uma origem curiosa, pois foi organizado pelo publicitário e jornalista Marcelo Dunlop a partir de seu arquivo pessoal. Tudo começou em 1989, quando ele estava com 10 anos e descobriu, ao ler um texto de Verissimo, que mesmo a morte poderia ser engraçada. Depois de muito gargalhar, ele recortou a crônica e iniciou uma coleção regularmente alimentada nas duas últimas décadas.

"Não se faz uma piada dessas impunemente com uma criança", escreve Dunlop no prefácio de Verissimas, que será lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional no dia 4 de outubro, a partir das 19 horas. "Um dos principais objetivos dessa antologia foi apurar se aquelas tantas frases espalhadas pela internet eram de fato dele."

Verissimo até se acostumou com a enxurrada de material que circula na rede internacional com a sua assinatura. Sempre que pode, nega a autoria, mas, às vezes, cria uma resistência. É o caso de um texto intitulado Quase. "É bem escrito e tem um tom de autoajuda. Logo, descobri que foi uma garota quem escreveu. O fato é que o texto correu o mundo e, certa vez, quando eu estava no Salão do Livro em Paris, uma senhora disse que tinha traduzido vários autores brasileiros como Clarice, Drummond e, no meu caso, o Quase, que virou Presque", conta o autor.

"Fico sem graça de dizer que não é meu. Em outra oportunidade, uma senhora veio me dizer que não gostava tanto dos meus textos, exceto do Quase, que era maravilhoso. O que posso dizer? Melhor não decepcionar. E, quando vou a escolas, onde os alunos encenam um texto que, na verdade, não é meu?", continua.

Uma das explicações para justificar tamanha reverência é o fato de Verissimo conseguir ser, em seus textos, popular e não popularesco. Qual a receita? "Não tenho", jura. "Acredito que, antes de mais nada, é ter clareza na escrita. E, como a crônica normalmente não é um texto grande, torna-se acessível a qualquer público." Verissimo não aceita ser chamado de humorista. "O tipo de graça que faço é para provocar um sorriso, não uma gargalhada. Não tenho essa pretensão."

Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, Luis Fernando Verissimo é autor de quase 60 livros que já venderam cinco milhões de exemplares (entre eles, os best-sellers O Analista de Bagé e A Comédia da Vida Privada) e de personagens emblemáticos (a Velhinha de Taubaté, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras).

Filho do também autor Erico Verissimo, ele só começou a escrever aos 32 anos, depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, inacabadas; de ter tentado o comércio "só para reforçar o mau jeito da família"; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal gaúcho Zero Hora. Desde a década de 1980, escreve regularmente no Estado, fonte de inúmeros verbetes que compõem Verissimas.

Apesar de consagrado, Verissimo ainda não se considera capaz de escrever uma "literatura com L", como costuma dizer. "Esse tipo de literatura depende de uma ambição, de uma necessidade de escrever, e isso eu nunca tive. Quando comecei, tinha apenas a necessidade de ter uma carreira", conta ele, que concorda plenamente com o velho amigo Zuenir Ventura, para quem, melhor que escrever, é ter escrito. "Quando produzimos um texto, estamos envolvidos com a técnica, o que impossibilita saborear essa escrita. O prazer parece que vem depois, especialmente quando agrada a outras pessoas. Gosto de ler coisas que escrevi há anos e ainda acho bem boladas. Por outro lado, eu me afasto das bobagens."

Verissimo também evita a leitura dos comentários ferinos que seus textos, especialmente os políticos, recebem. "Nunca escondi minha simpatia pela esquerda e pelo PT original. Mas, hoje, mesmo criticando a forma como o PT se afastou da esquerda, sou atacado, mas não sei de que forma, pois, quando percebo se tratar de uma lista de ofensas, nem termino de ler."

O escritor gaúcho faz observações também sobre a forma de falar do presidente Michel Temer. "O português é uma língua danada. Falar corretamente é algo tão raro que chama atenção, como no caso do Temer. Colocar o pronome no lugar certo é elitismo."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.