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Cavalera lança coleção verão 'Nossa Moda de Viola'

Conhecida pelas roupas moderninhas e descoladas, a Cavalera vai fazer na terça-feira, 9, um desfile incomum: levará cantores da música sertaneja para apresentar sua coleção verão 2017. A ideia, batizada de "Nossa Moda de Viola", foi do criador da grife, Alberto Hiar, que promete colocar na passarela nomes como Luciano (da dupla Zezé de Camargo e Luciano), Fernando (da dupla Fernando e Sorocaba) e até Milionário e José Rico. O evento vai acontecer no Tom Brasil, casa de shows localizada na zona sul de São Paulo, e deve receber mais de 3 mil pessoas.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Alberto Hiar fala sobre o preconceito com a cultura sertaneja, novos modelos de desfiles e o DNA rock'n'roll da marca.

A Cavalera sempre teve o DNA rock'n'roll. Por que investir no sertanejo agora?

Na verdade, a Cavalera é uma marca que nasceu da música e, evidentemente, tem uma forte tendência para o rock'n'roll. Nesta coleção, a gente está usando o tema sertanejo e moda de viola porque acreditamos que a moda faz parte da cultura. Temos que resgatar as referências daquilo que vivemos e escutamos para desenvolver uma coleção. O que mais me fascinou foi o preconceito, ou pós-conceito que as pessoas têm em relação à música sertaneja. Mas quando vejo o visual deles, imagino que poderiam muito bem estar com uma guitarra na mão, tocando rock. O sertanejo está aí e, falando bem ou mal, sempre é comentado pelas pessoas. É um estilo que é do tamanho do Brasil e as pessoas conhecem. A Cavalera nunca vai deixar de ter sua característica irreverente e seu DNA enquanto marca roqueira, mesmo nesta coleção.

Você se inspirou mais no sertanejo clássico, de raiz, ou no novo, que é chamado de universitário?

Eu trouxe um pouco dos dois. Eu vou ter nas passarelas tanto o Milionário e José Rico, quanto o Fernando, que faz dupla com o Sorocaba. Ninguém estará de cinto de fivela ou chapéu de cowboy. Na coleção, o sertanejo aparece nas estampas de camisetas, que trazem letras de músicas e matérias primas fortes como couro e jeans. A cartela de cores puxa muito par o preto e o branco, já que essa nova geração só quer saber do preto. Mas o Milionário, por exemplo, só usa branco. Se fosse para fazer uma coisa caricata, eu não faria. Nossa pesquisa foi sobre o novo como esses cantores se vestiam e como poderíamos reproduzir esse estilo sem modificar tanto a estética. Eles usam muito camiseta, calça jeans e jaqueta de couro. Pensei: como faço isso de uma maneira Cavalera?

E por que chamá-los para desfilar como modelos?

Se eu os colocasse só no tema e não os trouxesse para o desfile, não teria essa troca de cultura. Dessa maneira, eles conhecem mais do nosso mundo e nós o deles.

Por que fazer um desfile para quase 3 mil pessoas? É um número de expectador bem maior do que a média...

Convidei 28 dos nomes mais importantes da música sertaneja e eles têm fãs, parentes e amigos que querem assistir. Eu também quis fazer uma ação de doação de livros, então o evento é aberto ao público. Quem se interessar deve trocar um livro por um ingresso nas lojas da Cavalera.

Você levanta a bandeira do preconceito. Será que o cliente antigo da Cavalera pode rejeitar a coleção sertaneja?

Acredito que sim, porque trabalho com todo tipo de gente. Pode ser que um consumidor acabe se sentindo traído, mas quando ele ver a coleção e depois a próxima, vai entender que foi uma inspiração pontual. Que a moda tem disso e não vai agradar a todo mundo sempre.

O formato de desfile espetáculo funciona melhor na moda hoje?

Não acho que o antigo formato esteja morto. Cada marca e cada estilista têm sua estratégia com a área comercial. E se ele acha que o tradicional funciona, vai executar dessa forma. No caso da Cavalera, historicamente, saímos da sala de desfile. Poucas vezes fizemos desfiles com o formato tradicional, mesmo participando da SPFW. Para mim, não funciona mais fazer um desfile quatro ou cinco meses antes da coleção estar na loja. Por isso, troquei o calendário e saí do evento: porque não queria desfilar na data deles. Parece que existe um movimento pela mudança do calendário do evento. A gente pode até voltar. Eu adoro o SPFW, é um evento importante não só para a cidade, mas como para o Brasil inteiro. E é a nossa maneira de mostrar nossa cara para a moda mundial.

Você ouve música sertaneja? Gosta?

Sempre ouvi moda de viola: Almir Sater, adoro Chitãozinho e Xororó... Até quando usavam aquele cabelo meio ridículo, eles foram arrojados em inventar um corte próprio que foi copiado por milhares de pessoas. Adoro "Menino da Porteira", "Saudades da Minha Terra", "Disparada"... São musicas que canto e sempre cantei, assim como Maria Betânia, Caetano, assim como gosto de ir ao show do Sepultura e Ratos de Porão. Isso me torna uma pessoa diferenciada das outras. Não gosto de clichês, me definir. Sou o que tenho vontade de ser e isso é o que importa.