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Antes de tempestade, New Orleans viu shows históricos inesquecíveis

(Foto: Divulgação)  - Antes de tempestade, New Orleans viu shows históricos inesquecíveis
(Foto: Divulgação)

Henry Gray parece estar sentado diante do piano há cem anos. Sua música feita com dedos de pedra, assim como a expressão de sua face, é um fóssil depositado nas camadas mais profundas da Louisiana. Há um ritual em cada blues, um mantra de movimentos circulares que não se reproduz com notas nem se explica em palavras. Não adianta querer fazer o que Gray faz. O aparente primitivismo dos três acordes que sustentam um show inteiro é uma armadilha que cansa de desarmar aventureiros. Aos 91 anos, com a respiração difícil e o peito inquieto, soldado Gray, o homem que já combateu as forças alemãs durante a 2.ª Guerra e se aliou a Muddy Waters e Howlin Wolf no front dourado dos anos 1950, não faz apenas música.

A poucos metros de seu palco, em uma grande tenda, mais de 50 vozes contam outra história. Alguns turistas da plateia, sobretudo brancos de cidades vizinhas do Sul dos EUA, erguem as mãos sem saber bem por que fazem aquilo. A fé traficada em canção tem em seu louvor forças para fazer crer que a salvação da humanidade está em uma pedra. "A energia pode ser apanhada com as mãos", define o empresário Edgard Radesca. Primeiro, é o coral batista Vacherie, depois os Showers, os católicos do Voices of Peter Claver e Tonia Scott & The Anointed Voices. A elevação que o blues de Gray provocava silenciosamente é feita pelo gospel com o impacto de uma manada.

É o começo da tarde de sábado, 30, no Festival de Jazz & Heritage de New Orleans, quando outros sons começam a provocar o angustiante processo da escolha na massa que peregrina entre barracas de jambalayas e limonadas para chegar a um dos 12 palcos do festival. Como na quinta, 28, quando estar diante de Elvis Costello seria enterrar a Tedescki Trucks Band, o sábado colocaria no mesmo tempo e em espaços diferentes o guitarrista Buddy Guy, o trompetista cubano Arturo Sandoval e o inominável Stevie Wonder. Isso se os céus evocados pelo coral de Peter Claver não interrompessem a escolha. O dilúvio bíblico, que abateu o Sul dos EUA no fim de semana, começou no momento em que o guitarrista Roy Rogers contava uma outra história.

O californiano de 65 anos não entraria na tenda gospel. Suas estratégias para salvar vidas são bem mais pagãs. Sendo mais objetivo, Rogers é o demônio. Alinhado em terno e chapéu engomado, ele usa o bottleneck de vidro no dedo mindinho da mão esquerda para deixar outros três livres e poder digitar na velocidade que sua euforia exige. O efeito que produz, segurando solo e harmonia ao mesmo tempo, é o que muitas bandas só teriam com dois ou mais guitarristas. O homem que esteve ao lado de John Lee Hooker nos anos 1980 e produziu para ele quatro de seus discos precisa reconhecer que seu ritual tem muito mais força porque a seu lado está o xamã Carlos Reyes.

O enorme violinista e harpista paraguaio com carreira trilhada nos Estados Unidos é a cor que deixa Rogers diferente de tudo. Reyes traz ao blues o que os norte-americanos estão acostumados a ouvir no country, mas faz isso sem sotaque. Seu violino estudou na infância com as guitarras de Albert Collins e Stevie Ray Vaughan. Ele é implacável, gosta de volume, vai para a briga e, de 15 em 15 minutos, provoca, na energia que cria com Rogers, o fenômeno da levitação com a imprevisibilidade de uma tempestade.

O primeiro trovão soou durante um de seus solos e a plateia se dispersou. Ao olhar para as laterais da tenda, alguns fãs perceberam que não era brincadeira. A chuva abatia as lonas com estrondos e a água entrava por um rio que desalojava partes do público. Roy Rogers saiu de cena nas graças de uma apresentação inquestionável, mas sob certo nervosismo em uma cidade que, desde o Katrina, tem motivos para não confiar nas prudências da natureza.

Coube a Jon Cleary o desafio de vencer o céu. Esse pianista inglês de 53 anos, apaixonado por New Orleans, onde vive, veio com seu grupo, o Absolute Monster Gentleman. Seria jogo ganho, com um repertório de pegada fácil, a companhia agradável do baixista e cantor Cornell Williams e um bem jovem baterista de rock que tinha a função de substituir o gigante Jellybean, mas a tempestade parecia rivalizar com tudo o que faziam. Cleary tem um fraseado ágil nos agudos, bem-humorado, da escola de Johnny Johnson. Seu arsenal inclui Just Kissed My Baby e Lets Get Low Down, garantias de festa se o rio que já tomava o centro da plateia não começasse a subir. Seguranças passaram a retirar pessoas de áreas mais arriscadas, mas ninguém podia sair da grande tenda. Quando Jon Cleary percebeu a enroscada, começou a virar o jogo.

Seu show cresceu e seus solos ganharam força. Cleary investiu nos improvisos, brincou com os suingues e colocou a plateia no colo. Só terminou porque o apresentador foi ao microfone dizer que o festival havia terminado por motivos de segurança. Nem Stevie Wonder subiria ao palco na tarde em que o blues venceu os traumas de New Orleans.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.