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Ascensão, último disco de Serena Assumpção, explora a musicalidade do candomblé

Desde 2009, Serena Assumpção, filha de Itamar, figura das mais importantes da vanguarda paulistana, se viu incumbida de registrar as canções dos orixás cantadas nos terreiros de candomblé, em uma das visitas ao Ile De Oba De Dessemi, local frequentado por ela desde seis anos antes. O projeto engatinhou, ganhou forma, até andar com as próprias pernas. E, durante o processo, a artista enfrentou o câncer por duas ocasiões. A primeira, em 2011, ela venceu. A segunda, não.

Serena partiu em março deste ano, aos 39 anos, sem ver o fruto do seu trabalho em formato físico, mas o deixou pronto para o lançamento, realizado pelo Selo Sesc. Tudo que se encontra no álbum tem o toque e as escolhas da artista. O título, escolhido pelos búzios e adotado por ela, não poderia ser mais poético: Ascensão.

E a poesia e beleza esparramam-se pelo derradeiro trabalho que transcende a própria existência no plano físico. São cantos, de Serena e tantos outros convidados, a cada um dos orixás. De Exu a Oxalá. Serena, no terreiro, já havia atingido a hierarquia de vodunsi, ou filha de santo, um grau atingido após sete anos de iniciação. Mas, mesmo que a religião estivesse enraizada em quem ela era, a proposta de Ascensão era levar os cantos para novos mares e musicalidades.

O primeiro a embarcar no projeto com a cantora foi o produtor Rodolfo Dias Paes, o DiPa, a princípio apenas como consultor, enquanto ela registrava alguma das canções com o auxílio de Alfredo Bello, também conhecido como DJ Tudo. Serena cercou-se de amigos. Nas primeiras sessões, levou nomes como Tulipa Ruiz e Tatá Aeroplano, contemporâneos de geração de Serena e da irmã dela, Anelis. Ambos estão presentes na canção Ogum, o canto sobre o orixá guerreiro. "Na força do sabre / Ele abre os caminhos / Quem tem pai Ogum / Não anda sozinho", entoam, em coro, Serena e os dois convidados citados e Gustavo Souza.

Kiko Dinucci, Thiago França e Juçara Marçal, trio que forma o Metá Metá, comandam a canção sem batuques para Xangô. O violão dedilhado de Dinucci acelera e retrai o ritmo da faixa, enquanto o saxofone se vê livre para desenhar linhas rítmicas e melódicas ao mesmo tempo. Serena e Juçara se juntam para os cantos em homenagem ao orixá dos trovões, raios e fogo.

"Fizemos um processo bastante calmo, música a música", conta DiPa. "Às vezes, nos reuníamos duas vezes só para imaginar quem poderia cantar, qual instrumento poderia ser usado aqui ou ali. Foi um passo bem de formiguinha."

O câncer de mama de Serena, em 2011, desacelerou o processo, mas o produtor lembra que ela, ainda em tratamento no hospital, ligou para ele para dar a notícia de que o Selo Sesc havia decidido lançar o projeto. Ascensão sairia, enfim, do papel.

O outro nome que, ao lado de Serena e DiPa, assina a produção do álbum, Pipo Pegoraro, entrou no projeto neste momento. Os três compartilhavam afinidades musicais e o interesse pela cultura e pela religião dos orixás. "A cada pessoa que chegava ao estúdio para participar, Serena se sentava com ela, conversava, explicava o que estávamos fazendo ali", recorda Pipo.

As canções, explica o produtor, seguem o ritual do xirê e saúdam os orixás da mesma forma como acontece nos terreiros. Para essa celebração, Serena se rodeou dos seus. A lista de participações é enorme e inclui Karina Buhr, Luê, Zé Celso, Anelis Assumpção, Moreno Veloso, Mãeana, Tetê Espíndola, Curumin, entre tantos outros que ingressaram nessa comunhão e nessa caminhada com a artista. "Não existia a possibilidade de esse disco não sair", conta Pipo. "É um registro feito com muito coração", ele conclui. DiPa concorda: "É um disco que você ouve e conforta. Com ele, ela conseguiu algo maior. A poesia permanece. Foi feito com muita luta, com tanta dor, que é curativo. É um disco que acalanta. Você o ouve e fica emocionado". Serena, infelizmente, ascendeu, mas deixou Ascensão aqui.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.