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Em novo disco, Fernanda Abreu fala de momentos difíceis e de nova paixão

'Existe uma leveza no estado de espírito de Fernanda Abreu. Reflexo de uma nova fase na vida da cantora e compositora carioca, de 54 anos. Fernanda sorri fácil, fala orgulhosa das filhas, Sofia e Alice, se refere com admiração ao namorado, o músico, arranjador e produtor Tuto Ferraz, da banda Grooveria. E está feliz com a maneira como seu novo disco, Amor Geral, foi elaborado, em coletividade, com a participação de diversos parceiros, músicos e produtores. Seu último disco tinha sido lançado há dez anos, o Fernanda Abreu - MTV Ao Vivo, mas seu mais recente de estúdio até então era o Na Paz, de 2004. É que a alegria de hoje foi antecedida pela tempestade. Por isso, essa pausa tão grande entre seus álbuns.

"Desde 2006, fiquei com uma turnê bem intensa do projeto da MTV. Aí, em julho de 2007, minha mãe entrou em coma e comecei a fazer análise, porque foi difícil para mim. Ela tinha, desde 40 anos, um meningioma, que é um tumor na cabeça, benigno, mas estava numa localização muito ruim. Então, não tinha como tirar. Ela foi perdendo aos poucos as funções, audição, visão, foi para a cadeira de rodas", lembra Fernanda, em entrevista ao Estado, na casa de seu namorado, Tuto, em São Paulo - ela continua morando no Rio. "Foi um processo meio lento. Meu pai sempre cuidou dela. A gente ia administrando até um dia que ela teve uma parada respiratória e entrou em coma." Foram anos nesse estado até ela morrer.

Nesse mesmo período, Fernanda conta que seu casamento de 27 anos com o designer Luiz Stein, pai de suas filhas, estava balançado. "Eram muitos anos, a gente já era muito amigo. São coisas que você tem de se perguntar na vida. Uns encaram esse desafio e outros, não." O casal se separou em 2012. "Fiquei sem compor durante uns 5 anos."

Fernanda conheceu Tuto Ferraz quando ela fez um show com Fernando Vidal no Na Mata Café, em São Paulo. "Conheci ele no camarim. Na verdade, nem liguei a pessoa à Grooveria. Quando a gente se conheceu, achei que ele era um surfista, um fotógrafo. Ele começou a falar de música e eu disse: 'Nossa, você faz o que, afinal?'. E ele: 'Sou baterista, tenho uma banda chamada Grooveria'. 'Ah eu conheço'." A partir de então, eles passaram a conversar, ouviram durante horas música juntos, começaram a namorar.

O relacionamento com Tuto - na realidade, o próprio Tuto - a incentivou a se dedicar novamente à música. Mas, quando Fernanda retomou a composição, seu luto, sua separação, enfim, suas questões pessoais estavam muito latentes e não puderam ser ignoradas nesse processo. É muito comum artistas usarem sua arte para exorcizar sofrimentos, externar o luto. Foi assim com Fernanda, mesmo que ela não o fizesse de forma consciente. Apenas precisava ser feito. "Desse período, surgiu esse disco e tem música para todo mundo: para minha mãe, para o Luiz, para o Tuto. Acho que foi um período difícil, mas também inspirador, porque consegui fazer esse trabalho", diz ela.

"É um disco que me expõe muito e sempre fiz músicas muito mais crônicas. Fiquei pensando: será que estou me expondo demais? Mas, realmente, não foi uma escolha, foi o que eu tinha para o momento. Acho que é um trabalho que não fala só de uma coisa muito pessoal, porque, pela minha própria formação, não sou uma pessoa que pensa só na coisa do indivíduo, do eu, do meu amor, do meu desamor, do meu encontro, do meu desencontro. Acho que, nesses anos todos que fiquei vivendo isso, eu também percebi que o amor é uma força muito potente, muito vigorosa, e pode te ajudar em muitos momentos."

De fato, é o primeiro trabalho assim, autobiográfico, dela em 25 anos de carreira solo - pós-banda Blitz, da qual fez parte nos anos 1980. E esse traço fica muito evidente logo na primeira faixa de Amor Geral, em Outro Sim (parceria dela com Jovi Joviniano e Gabriel Moura). "Outrora, outra vez, outro lar/Outro lugar, outra mulher, outro homem/O trem vai pra uma outra estação/Um outro inverno e lá vem outro verão", traz o início da canção. "Ela é bem emblemática, tanto do que eu passei, da minha vida, e do mundo mesmo", avalia Fernanda. "A história de que é possível, com 50 anos, se apaixonar, a vida mudar, e você também ter um olhar para o outro.

Acho que tem a ver também com o que a gente vive. Para mim, esse modelo de capitalismo está meio falido, de você pensar em você primeiro, essa coisa individual de que, você fazendo sua parte, vai dar tudo certo na sociedade. Mais ou menos, né? O legal da vida são as pessoas, não é o dinheiro, não é seu carro, não é nada. Quando você chegar aos 90 anos, quem você conheceu na vida, os encontros que foram legais, o quanto você cresceu com os outros", completa ela.

É com essa visão do coletivo que Fernanda fez seu novo álbum. Além de vários parceiros nas composições - alguns já de longa data, como Fausto Fawcett, que assina com ela e Pedro Bernardes a canção-título -, as faixas têm diferentes produtores - Liminha, Tuto Ferraz, Rodrigo Campello, Wladimir Gasper, Sergio Santos e T.R.U.E -, sob direção musical e produção executiva da própria Fernanda. "É muita gente envolvida, esse processo de conhecer, ouvir e falar. Hoje, percebemos na internet muita gente falando muito e ouvindo pouco. Adoro trabalhar em equipe, me ensinando e eu podendo contribuir com alguma coisa. Acho que dá muito mais trabalho do que montar uma banda, ir para o estúdio com o produtor e, em dois meses, acabou o disco. Mas você ir buscando outros parceiros, outros olhares, outros ouvidos, para mim, é muito enriquecedor."

Em Amor Geral, Fernanda também reafirma suas matrizes, do funk, do samba, da disco, entre outros ritmos que constroem sua identidade musical. O que pode remeter mesmo ao início de tudo, lá no seu álbum SLA Radical Dance Disco Club, de 1990. "Eu queria fazer um disco punch, dançante, que batesse nas caixas de som. Eu estava sentindo falta desse som, de ouvir isso na música brasileira." Uma sonoridade dominante, mas não integral. Há momentos mais emocionantes, que pedem a justa suavidade, em Antídoto, dedicada à sua mãe, O Que Ficou, endereçada ao ex-marido, e a bela Valsa do Desejo, sua declaração de amor para Tuto Ferraz.

Suas grandes companheiras de vida, sobretudo nas fases de luto, as filhas Sofia, de 23 anos, e Alice, de 16, admiram o trabalho da mãe, mas, segundo Fernanda, não querem seguir sua profissão. A mais velha está fazendo Medicina e a mais nova quer ser professora de História. "Elas sempre gostaram de música, mas as duas sinalizaram num determinado momento: 'mãe, sua vida é muito difícil, vivendo nessa instabilidade: se faz show, tem dinheiro, se não faz show, não tem; você tem reconhecimento aqui e depois não tem'. Elas ficam revoltadas quando alguém diz que artista é vagabundo, porque veem que batalho por direito autoral, vou a Brasília. Dizem: 'mãe, eles não sabem que você nunca conseguiu um patrocínio na sua vida'?!"

No dia da entrevista, o Ministério da Cultura ainda não havia sido recriado pelo presidente em exercício Michel Temer, mas Fernanda defendia que Temer devia voltar atrás na decisão de fundir os Ministérios da Cultura e da Educação. "Sou totalmente contra a fusão. Total retrocesso", afirmou. "Não consigo entender qual é o motivo para extinção do MinC, ele nem tinha orçamento grande. Essa escolha é política, revela sua cabeça política, o que você quer deixar de lado e o que você quer valorizar."

Após a notícia da volta do MinC, Fernanda comemorou: "Não existe projeto de nação sem valorização e fomento da Cultura. Essa vitória não significa um apoio ao governo ilegítimo do Temer. A sociedade brasileira teve de volta o que nunca deveriam ter tirado dela".

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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.