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O afro jazz libertário de Lourenço Rebetez

(Foto: Divulgação) - O afro jazz libertário de Lourenço Rebetez
(Foto: Divulgação)

O guitarrista Lourenço Rebetez lança neste sábado, 20, seu primeiro disco solo, O Corpo de Dentro, no Itaú Cultural. Um álbum bem cuidado, instrumental, com 12 músicos executando seus temas e arranjos. A notícia, dita assim, pode dar falsas pistas. Há pouca guitarra nas faixas, indicando que a matriz criativa de Rebetez não está no instrumento que ele toca. Ao criar sem a guitarra no colo, ele muda completamente o eixo de seu pensamento e entrega sua música para os ventos de uma liberdade idiomática degustada por criadores sem fronteira. Quem aponta os caminhos não é a linguagem de um único instrumento, mas a carga cultural que as experiências de Rebetez fazem acumular.

Ao que as matérias já publicadas indicam, e um texto de apresentação monumental assinado pelo pesquisador Zuza Homem de Mello faz crer, as expectativas sobre esse jovem de 30 anos podem estar criando, à sua revelia, um momento de euforia sobre o frescor, mais conhecido como hype. Seria a glória se um músico instrumental de alto calibre, como Rebetez e os profissionais que o acompanham, atingisse esse status, mais comum a outros universos musicais. Hypes soam vanguarda, são seguidos por fãs ávidos e ganham espaços extras na mídia. Muitos não justificam no palco o fenômeno que os atinge fora dele, o que não seria o caso de Rebetez.

Quando passa pelas esteiras classificatórias, sua música ganha o selo de afro jazz com naturalidade. O nome não o desagrada. "Gosto, soa bonito", diz. Ozu, o segundo tema do disco, dá todas as letras. Sopros de Moacir Santos no terreiro de Letieres Leite evocando os espíritos de Wayne Shorter. Birjand é saudada por afoxés antes da entrega ao imprevisível de um piano livre, sopros em camadas bem estudadas e bateria nervosa. É leve mas há impacto. Arto Lindsay assina a produção e a ficha técnica traz músicos talentosos.

Filho de pai soteropolitano e mãe carioca, mas de berço também baiano, Lourenço é de São Paulo e faz seu caminho entre bons artistas. Estudou na renomada Berklee College of Music, de Boston, e passou uma temporada colado na sombra de Letieres Leite para descobrir como aquela mente funciona. A formação que levará ao Itaú é a mesma do disco: seis sopros, três percussões, um trio de jazz e ele. Em tempos de enxugamento de grandes máquinas, que passaram a se apresentar em solos ou duos para conter gastos, Lourenço quer seu som grande. Um luxo necessário, mas cada vez mais raro. A reportagem pergunta se não passou pela cabeça batizar sua big band como fez Proveta com a Mantiqueira ou o próprio Letieres com a Orkestra Rumpilezz. "Engraçado, pensei sim. Mas ainda não fiz." Bom sinal. Lourenço está mais preocupado em fazer música.


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.