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Zwick mostra a guerra fria midiatizada pela TV em 'O Dono do Jogo'

Edward Zwick é um daqueles diretores pelos quais os críticos não têm muito apreço. O próprio Leonardo DiCaprio, que prefere trabalhar com autores, praticamente se desculpa por haver feito Diamante de Sangue, que não coloca no mesmo plano de suas parcerias com Martin Scorsese, e o problema é dele, bem entendido, e dos críticos que rezam pelas cartilha do amigo Martin. Diamante de Sangue dá de dez em qualquer Gangues de Nova York, O Aviador, no próprio Os Infiltrados. Já existe uma crítica acadêmica dos EUA que considera o Diamante de Zwick o novo padrão de qualidade de Hollywood.

Zwick fez outros bons filmes como O Último Samurai, com Tom Cruise. E, embora O Dono do Jogo, que estreia nesta quinta, 28, não se compare aos dois, não faltam atrativos para o drama inspirado no lendário Bobby Fisher. Tobey Maguire, ex-Homem-Aranha, é quem faz o papel. O personagem é o típico gênio atormentado. Bobby Fisher tornou-se o mais jovem campeão de xadrez do mundo. O roteiro esmiúça sua escalada no mundo do xadrez, as excentricidades. Mas tudo isso se inscreve num quadro maior. Os filmes de Edward Zwick buscam sempre estabelecer retratos de época.

No caso de O Dono do Jogo, a época retratada é a da Guerra Fria. O filme inscreve-se numa tendência recente de Hollywood. Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg, Trumbo - Lista Negra, de Jay Roach, e Ave, César, dos Irmãos Coen. Todos se situam nos anos 1950/60 e, com maior ou menor propriedade, abordam o macarthismo. No quadro de polarização da disputa hegemônica entre EUA e URSS, a chamada Guerra Fria, Bobby Fisher terminou virando uma figura emblemática. Os soviéticos transformaram o xadrez em arma de propaganda. Tinham seu campeão aparentemente imbatível, Boris Spassky. Bobby foi cooptado a derrotá-lo para, patrioticamente, provar a superioridade da América. Se já tinha problemas de infância - as simpatias comunistas de sua família -, adulto tornou-se louquinho, a própria representação da paranoia norte-americana.

Toda a arquitetura dramática de O Dono do Jogo converge para o confronto entre Bobby e Spassky. A demanda popular - a transformação de Bobby em ícone midiático - termina por massacrar seu frágil ego. O herói americano descola-se da realidade. Ganha, mas a que preço - a desintegração da própria personalidade. Zwick gosta desse tipo de personagem que se pode definir como sacrificial. Leonardo DiCaprio antecipa a própria morte em Diamante de Sangue, Tom Cruise não seria o último samurai se não estivesse disposto a chegar até o haraquiri. E Bobby?

Talvez o aspecto mais interessante de O Dono do Jogo seja a disposição do cineasta de contar sua história pelo filtro da televisão. Numa época em que a TV se afirmava na vida cotidiana dos norte-americanos - mas ainda levaria um tempo até que o teórico da comunicação Marshall McLuhan e o artista visual Andy Warhol antecipassem os 15 minutos de fama a que todo mundo teria direito na nova mídia -, o embate entre Bobby e Spassky atinge dimensões épicas na telinha. Mais que a biografia, digamos, acurada, o filme tece uma história de suspense por meio da TV. Bobby vai ao limite porque, no quadro da Guerra Fria, não tem como recuar, decepcionando uma nação inteira. Ao contrário de John Ford, que gostava de filmar a grandeza dos derrotados, Edward Zwick, em O Dono do Jogo, concentra-se na miséria dos vencedores.

Spassky, com sua corte, o caviar e a champanhe, já antecipa a elitização, portanto, o fracasso do comunismo. Inversamente, Bobby não vai afirmar a força do indivíduo porque o filme narra a história da sua fissura emocional. Pode-se gostar mais ou menos desse ou daquele filme da tendência, mas o importante é que todos formam um bloco que disseca uma fase importante - e controvertida - dos EUA. Nesse sentido, O Dono do Jogo é mais que necessário. Valioso. Nenhum outro filme discute tanto a TV no processo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.