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Afastado, Muricy diz que seleção 'jogou dois anos fora' e defende escolha de Tite

(Foto: Clube de Regatas Flamengo) - Afastado, Muricy diz que seleção 'jogou dois anos fora' e defende escolha de Tite
(Foto: Clube de Regatas Flamengo)

Após deixar o Flamengo, há quase um mês, com problemas de saúde, Muricy Ramalho planeja retornar ao futebol longe da beira dos gramados, apenas como coordenador. Mesmo assim, ainda busca consenso na família, que prefere não vê-lo nos campos de futebol. Na última quarta-feira, recebeu o jornal O Estado de S. Paulo em sua casa de agasalho e boné, trajes típicos da maioria dos treinadores, e manteve o habitual tom crítico, principalmente ao falar sobre o momento do futebol brasileiro.

O ex-comandante do Flamengo deu entrevista exclusiva na semana da saída do técnico Dunga e da chegada de Tite à seleção brasileira. A mudança, para Muricy, atestou o quanto a CBF perdeu tempo desde a Copa de 2014. "Nós jogamos fora dois anos. Depois da Copa do Mundo, tinha que parar o futebol brasileiro, colocar um técnico interino e vários segmentos do futebol se reunirem para sair com um projeto", afirmou.

Aos 60 anos, Muricy está há 40 no futebol e há mais de 20 como técnico. O último trabalho acabou repentinamente para que pudesse cuidar da saúde. As crises de arritmia assustaram. Futebol, agora, só pela televisão. A volta à ativa será só no ano que vem. A rotina em 2016 será de exercícios físicos, exames médicos e fins de semana no sítio em Ibiúna para relaxar.

O estresse inerente ao futebol o faz planejar o possível retorno longe da beira do campo. "Seria coordenador técnico, alguém que fizesse a ligação da diretoria com o treinador. Essa função ainda tem espaço no Brasil", explicou. Para Muricy, o cargo que pensa em assumir é uma função incipiente no País e, por isso, ajuda a explicar a crise atual no futebol.

Ele só vai precisar conversar com a mulher e os filhos antes de voltar a atuar. Todos temem que o estresse da profissão o atrapalhe novamente e preferem que Muricy descanse após ter interrompido os dois últimos trabalhos como treinador (o primeiro no São Paulo, em 2015) para cuidar da saúde. "Eles não querem que eu volte mais", contou.

Muricy repensou sobre os apelos familiares ao relembrar de Telê Santana, tutor do seu início na carreira de técnico. Telê apenas parou de trabalhar aos 65 anos, quando sofreu uma isquemia cerebral. "Não quero ficar como ele. Vi que tudo o que aconteceu com ele foi por causa do futebol. O esporte é bom, mas é uma escravidão. Você não tem vida pessoal. O futebol te consome", disse. "O Telê morava no CT. Não tinha vida. Ficou doente por isso, tenho certeza", comentou.

Por se considerar intenso, Muricy pensa em atuar em uma função menos exigente. Ele garante que não vai ceder a possíveis ofertas nem mesmo a convites para virar comentarista.

Somente uma das tentações de pertencer ao ambiente do futebol é capaz de fazê-lo ceder. "Tenho saudade principalmente de jogar. Mas o corpo não responde, aí me machuco. Coisas de velho. Até sou convidado para jogar, mas prefiro ficar só no churrasco", admitiu.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Estado de S. Paulo, Muricy afirmou que a CBF fez a melhor escolha possível para o novo técnico da seleção brasileira. Tite ganhou apoio do ex-técnico do Flamengo por ser, segundo ele, o melhor da treinador da atualidade. Confira:

Ainda pensa em ser técnico?

O mais provável é não voltar a ser treinador. Como estava me dando arritmia com muita frequência, então não acredito que possa voltar a trabalhar no nível de exigência que eu gosto. Meu pai morreu disso, de enfarte, e minha mãe, de derrame. Tenho que me cuidar.

E em que função pensa em voltar a trabalhar no futebol?

Como coordenador técnico, mas com autonomia. Seria alguém que fizesse a ligação da diretoria com o treinador. Ele escolheria o técnico junto com a diretoria. No Brasil se contrata um treinador e às vezes ele não tem a ver com o que o clube pensa, contratam porque estava disponível. Essa função de coordenador ainda tem espaço no Brasil. Às vezes coloca uma pessoa por ser amigo do presidente. Nossa gestão é ainda muito amadora, feito com jeito de torcedor. Aqui escolhem na base da simpatia.

Gostou da escolha pelo Tite?

Quando acabou a Copa, antes de o Dunga ser o técnico, eu dizia que era a vez do Tite. Para treinar a seleção tem que ser o melhor, assim como na época em que fui convidado (2010) eu era o melhor. Não aceitei porque não concordava com algumas coisas. O Tite continua merecendo. Uma coisa que deveriam fazer lá atrás está acontecendo agora. O Tite se preparou, sabe que não será como em um clube, de ter o dia a dia.

A safra atual do Brasil é boa?

Não é possível que esses que estão no Chelsea, Atlético de Madri ou na Itália não sejam bons jogadores. Claro que não é uma geração de craques. Só temos um craque, o Neymar. Sem Neymar, o time vai precisar resolver. Temos uma grande dificuldade atual no que sempre tivemos de melhor, atacantes. Os nossos números, se formos analisar, finalizamos muito pouco. Não temos número 9 mais. Tivemos que levar o Ricardo Oliveira, que tem mais de 30 anos.

Mas o que houve para o Brasil não revelar mais atacantes?

Fiquei 13 dias no Barcelona e só no oitavo dia fui perguntar quem era o preparador físico. Não tinha visto nenhum trabalho antes. Era só bola, o tempo todo. Esses dias fui ver um treinamento de sub-11 e vi um moleque fazendo trabalho físico. Isso não existe. Eu já trabalhei com essa categoria, tem que trabalhar só com bola, para fazer eles se divertirem.

O que o Brasil evoluiu depois da Copa de 2014?

Nada. Jogamos fora dois anos. Não se conversa, não se fala no futebol brasileiro. Não aconteceu nada. Falta muito debate para melhorar. Na hora que um time jogar mal e ganhar, não tem mais que valorizar.

E a saída do Dunga?

Não me surpreendeu. O futebol é resultado. Acompanhei o trabalho dele e do Gilmar Rinaldi (ex-coordenador de seleções). O que pedíamos para os dois é fazer no Brasil um curso de técnico de dois anos igual ao da Uefa. O Gilmar estava trabalhando nisso, fez muitas melhorias fora do campo. Só que no futebol sem resultado, não dá certo. Eles vinham fazendo boas mudanças, que não eram tão evidentes.

Você apoia ter mais técnicos estrangeiros no Brasil?

Depois do 7 a 1, o estrangeiro pode ser do Afeganistão que parece o melhor do mundo. Não sou contra estrangeiro na seleção brasileira, mas tem que ser o melhor. Traga o Guardiola. Nós temos o Tite, que é muito bom, assim como outros. O momento é de um brasileiro, porque é metade de um caminho. Não adianta vir um estrangeiro nessa bagunça que é o Brasil. Por isso falo que tem de fazer um congresso, para elaborar uma proposta de mudança. Nossa gestão é muito ruim, pior do que dentro de campo, onde os treinadores têm melhorado e estudado.

Falta renovação de técnicos?

Os que tiveram a oportunidade não aproveitaram. Não é fácil renovar. Pensam que é só substituir. Mas tem time que é um Boeing e o cara está acostumado com teco-teco. Temos bons técnicos jovens, gosto do Fernando Diniz. Tem personalidade, proposta, vivência, só pegou trabalho difícil. Aí falta ter um coordenador técnico que conheça de futebol, para indicar quem é bom, ter um olhar que não é político. Não tem avaliação técnica. Eu sei como funciona.

E como ex-técnico do São Paulo, o que acha da reação do time?

O time agora é valorizado, meses atrás se falava em reformulação. O futebol muda do dia para a noite. Por isso tem que ter profissionais para analisar as situações. O São Paulo é favorito ao título, é superior aos times que restaram na Libertadores. Agora é difícil de parar o time, está muito forte, ainda mais no Morumbi. O técnico conta com um bom elenco. Como acalmou a parte política, ficou tranquilo. Não tem um clube com vitória no futebol que tenha crise. Todo mundo fica feliz e volta a ser amigo. Tem tudo para ser campeão.

O que mais estava te estressando no futebol?

A rotina é a mais pesada. Quarta e domingo, os dias de jogos, são os mais fáceis. O difícil do futebol é o dia a dia. Você planeja uma coisa, mas muda muito. Um jogador machuca, outro tem problema com a família. Você tem que organizar muitas coisas. O pior momento no Flamengo foi não ter campo. Em quatro meses a gente viajou 35 mil km. Até de ônibus a gente viajou muito. Quem também tem essa arritmia é o Levir Culpi e o Milton Cruz. Só que a deles é mais leve. O Levir é mais calmo que eu. Dias atrás ele me ligou e falamos sobre remédios (risos). Tomamos o mesmo. Veja só o nosso assunto!

Sua família apoia esse possível retorno ao futebol?

Minha mulher até me perguntou: "Isso o que você está querendo é parecido com ser treinador ou menos estressante?". Eu falei que mais estressante que treinador não existe. Eles não querem que eu volte à loucura. A opinião deles pesa muito, mas da última vez eu me assustei. Lógico que penso muito nas pessoas que trabalham comigo, meus auxiliares e na família. Pensei durante 40 anos em todas essas pessoas, mas agora tenho que pensar em mim, porque se não, daqui a pouco não vou estar aqui para ajudar a todos. Não vou trabalhar neste ano. Quero descansar um pouco.