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Por maior cooperação, EUA pedem adiamento de condenação de J. Hawilla

A pedido do governo dos EUA, a Justiça norte-americana adiou a decisão judicial sobre J. Hawilla, dono do grupo Traffic, a maior agência de marketing esportivo da América Latina. Em carta enviada ao juiz Raymond Dearie no último dia 4, a promotoria solicitou que a eventual condenação seja transferida para outubro de 2016, diante do fato de Hawilla estar "cooperando continuamente com as investigações do governo".

J. Hawilla é um dos poucos réus confessos investigados pelo FBI - a polícia federal dos EUA - pelas acusações de lavagem de dinheiro, extorsão, fraude eletrônica e obstrução da justiça. Com sua ajuda, o governo investiga a venda de direitos de transmissão e patrocínio de campeonatos de futebol e de jogadores, além de empresas de televisão no Brasil.

Este é o segundo pedido de adiamento da decisão para a sentença de Hawilla desde setembro de 2015 e vem motivado pela ajuda que o empresário dá as investigações. Foi Hawilla quem gravou conversas incriminadoras com os ex-presidentes da CBF José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, e com Aaron Davidson, presidente da Traffic USA, filial de sua empresa nos EUA.

Para a promotoria, é importante que Hawilla continue colaborando para que as investigações avancem. Os negócios de Hawilla já movimentaram milhões de dólares e a investigação envolve redes de TV que negociaram direitos de transmissão de jogos.

Com a prisão de mais de uma dezena de cartolas do futebol em quase um ano, os investigadores não querem o fim da cooperação de Hawilla, justamente agora que podem contrapor sua versão à dos dirigentes detidos justamente por causa de sua delação. Assim, o adiamento também serve aos interesses do FBI.

O empresário brasileiro já entregou a cúpula da CBF à Justiça americana e revelou como pagou subornos para ganhar contratos por mais de 20 anos. Hawilla ainda acertou um acordo com os EUA para devolver US$ 151 milhões (cerca de R$ 575 milhões) e denunciou Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero.

Desde 27 de maio de 2015, o FBI já indiciou 14 pessoas por lavagem de dinheiro, fraude e formação de quadrilha: nove dirigentes da Fifa e cinco executivos de empresas ligadas ao futebol.

Em 12 de dezembro de 2014, Hawilla esteve diante do juiz Raymond Dearie - que também julga os outros envolvidos no caso - e explicou que as propinas eram necessárias para garantir que a Traffic conseguisse os contratos. Ele confessou ser "culpado" pelas acusações e indicou que o pagamento das propinas começou ainda em 1991.

"Desde 1980 eu desenvolvo meu projeto por meio da minha empresa Traffic. Eu comprei os direitos para eventos de futebol e comecei a promovê-lo de uma maneira legítima pelo mundo", explicou o empresário, segundo a transcrição da audiência obtida pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Mas tudo começaria a mudar. "Quando fui renovar o contrato para um desses ventos, a Copa América em 1991, um dirigente associado à Fifa e sua federação à Conmebol me pediu propina para eu assinar o contrato", contou Hawilla na ocasião. "Eu precisava do contrato por que eu havia assumido compromissos futuros. Apesar de eu não querer, eu concordei em pagar a propina àquele dirigente."

"Depois disso e até em 2013, outros dirigentes vieram a mim pedir propinas para assinar ou renovar contratos. Eu concordei em pagá-los por contratos de direitos de marketing para vários torneios e outros direitos", explicou. "Eu concordei em pagar propinas para contratos para a Copa América, a Copa Ouro, para a Copa do Brasil e para o acordo de patrocínio da seleção brasileira."

Outro contrato com o envolvimento de Hawilla foi entre a CBF, comandada por Ricardo Teixeira nos anos 90, e a Nike. Pelo menos US$ 40 milhões em propinas foram repartidas, inclusive para o ex-presidente da CBF. O empresário ainda reconheceu seu crime. "Eu sabia que essa conduta era errada. Me arrependo muito e peço desculpas pelo que fiz", disse Hawilla.

Em março de 2014, Hawilla fechou um acordo de cooperação com a Justiça dos Estados Unidos e, segundo documentos, o empresário aceitou devolver os US$ 151 milhões obtidos em receita de apenas dois anos - 2012 e 2013 - com contratos com a Copa do Brasil e outros torneios.