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Sociólogo critica ações para coibir violência no futebol: 'Estão enxugando gelo'

A morte de José Sinval Batista de Carvalho, de 53 anos, vítima da violência entre torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras, no domingo passado, foi a quinta no País relacionada a brigas no futebol apenas este ano. Desde 2010, são 114 vítimas confirmadas. Os números apontam para a ação de grupos criminosos que se infiltram nas organizadas e atestam a fragilidade das ações que vêm sendo tomadas por clubes, federações, órgãos de segurança e poder público, avalia o sociólogo Mauricio Murad, professor da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), que estuda a violência no futebol há 26 anos.

O pesquisador começou a acompanhar o tema em 1990, pouco mais de um ano após a morte de Cléo Sóstenes. À época presidente da Mancha Verde, Sóstenes fora assassinado com dois tiros em 22 de outubro de 1988. "O caso ficou claramente indicado como um óbito resultante de conflito de torcidas organizadas e virou um marco do início da violência e dos homicídios entre torcedores de futebol", recorda Murad. "Naquele momento, as torcidas passavam das páginas esportivas para as páginas policiais."

O sociólogo classificou como "bárbaro e inaceitavelmente covarde" o assassinato de José Sinval - que só teve a identidade confirmada na quinta-feira, cinco dias após o crime. Mas Murad não se surpreendeu. Segundo ele, a violência no futebol tende a continuar porque não há um plano nacional para combatê-la. "Estamos enxugando gelo", sustenta.

As medidas anunciadas na segunda-feira passada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo - torcida única nos clássicos, proibição de faixas e adereços que identifiquem organizadas e venda de ingressos somente pela internet - não convencem o pesquisador, que as considerou como paliativos que "tendem ao fracasso".

"É uma medida simplista, uma canetada. A gente acha que resolve tudo na canetada", critica. "Vender ingresso pela internet é interessante porque evita o cambismo; controlar a entrada de paus (mastros) que podem servir de arma lá dentro também é interessante. Torcida única, não. É uma medida paliativa que desgasta o espetáculo. O conflito é maior fora, a torcida que não pode entrar no estádio se espalha pela cidade e fica atocaiando aquela que vai sair duas horas depois", pondera Murad. "Essas medidas são pontuais, midiáticas. Não são de longo prazo, consistentes."

Para ele, a solução só virá quando o combate à violência no futebol se tornar uma política de Estado. "O plano tem que ser nacional, estratégico, chamado pela Presidência da República como uma prioridade de governo e de Estado, como foi feito na Inglaterra", defende.

Lá, além da construção de 30 novos estádios desde o fim dos anos 1980 e da reforma de diversos outros, houve mudanças na legislação. Torcedor que é pego brigando é punido com a proibição de frequentar jogos de futebol por até dez anos. A lei é eficaz porque todos os que são pegos são registrados e monitorados. Caso sejam identificados em alguma das arenas, são retirados do local na mesma hora. Além disso, os órgãos de segurança atuam de forma a prevenir as brigas. Agentes trabalham de forma discreta nos estádios, e os serviços de inteligência monitoram as redes sociais.

Por aqui, porém, o combate à violência nos estádios não parece despertar o interesse do poder público com a intensidade que merece. Apesar de estudar o tema há mais de um quarto de século, Maurício Murad nunca foi chamado para discutir a fundo o tema com as autoridades. Pior: nem mesmo suas pesquisas são consideradas.

"Anualmente, nós disponibilizamos nosso relatório, com tudo detalhado, com números, com informações, com mapeamento, com análises e com sugestões práticas. Procuramos em todos os relatórios dar sugestões concretas, com base na lei e na cultura brasileira. Procuramos sugerir, contribuir, mas infelizmente as instituições do País estão vazias de vida, de interesse coletivo, de autoridade", comentou. "As autoridades públicas no Brasil não são nem públicas nem autoridades. Em geral são pessoas mais interessadas em seus interesses privativos, sem pensar no conjunto da sociedade."

ORGANIZADAS - Para Maurício Murad, a violência no futebol brasileiro decorre de vários fatores, que muitas vezes passam ao largo do futebol. Ele cita questões macrossociais, como as várias formas de violência que afetam o País e se repetem nas arquibancadas, como tráfico e consumo de drogas, preconceito e machismo.

O problema, segundo ele, mora na impunidade. "Em 2014 e 2015, apenas 3% de todos os crimes cometidos no futebol, dentro e fora dos estádios, foram levados até as últimas consequências. No mesmo período, apenas 5% dos crimes em geral foram punidos até as últimas consequências. No trânsito, apenas 8% dos delitos foram levados até as últimas consequências. E nas lutas históricas, seculares, da posse da terra entre lavradores e latifundiários, somente 3% dos crimes foram apurados até o fim. Falamos do futebol, mas na realidade estamos falando da impunidade brasileira", destaca.

Há também as questões microssociais, relacionadas diretamente ao esporte. "Um exemplo é o fenômeno da multidão, já que tudo se exacerba, tudo se acentua. Os indivíduos pensam que na multidão eles estão ocultos e que tudo podem fazer", explica. "E há a conivência de clubes e federações. Há torcidas (organizadas) em que não se sabe de onde vêm os recursos. É preciso fazer uma devassa, uma auditoria na contabilidade das torcidas."

O sociólogo, porém, defende a existência das organizadas. Culpar esses grupos pela violência nos estádios - ou fora deles - é uma visão preconceituosa e elitista, avalia o pesquisador. "Acho as organizadas muito importantes para o futebol. É o 12º jogador, é a responsável pelas alegorias, pela festa, pela criatividade. É o embelezamento do espetáculo", comenta. "O que nós precisamos é separar o joio, a erva daninha, do trigo."

Em seus estudos, Murad constatou que, em geral, os que se envolvem em brigas são pessoas que já possuem algum antecedente criminal e utilizam o futebol como mero cenário para delinquir. "Eu peguei um inquérito da Polícia Civil de São Paulo, de torcedores que a polícia capturou, e que eram ao mesmo tempo afiliados do Palmeiras, do Corinthians e do São Paulo. O inquérito concluiu o que era óbvio: eram traficantes que usavam aquelas multidões tocadas pela paixão para cometer suas práticas e comércios ilícitos", cita.

Para casos como esse, o sociólogo defende atuação enérgica. "É preciso repressão contra as facções que são claramente vinculadas ao crime organizado, ao tráfico de drogas e até ao mercado negro de armas. Em São Paulo, por exemplo, a ligação com o PCC é claríssima e já comprovada. A essas facções eu sou a favor da dura repressão da lei", diz. "Agora, a maioria (dos membros de organizadas) deve ser preservada e estimulada."

Ele cita dados de levantamentos recentes para defender essa teoria. "Nós temos 345 torcidas cadastradas no Brasil; dessas, apenas 15% são reincidentes em atos de vandalismo e violência em 2014 e 2015", relata. "Entre aqueles 15% reincidentes, as pessoas afiliadas que são responsáveis pelas agressões e vandalismos são entre 5% e 7%."

Proibir as torcidas organizadas também é considerada uma medida inócua pelo sociólogo. "A Mancha Verde foi extinta em São Paulo e pouquíssimo tempo depois ressurgiu como Mancha Alviverde - uma desmoralização, um deboche contra a autoridade pública", lembra. "Por que quando um deputado é flagrado em roubo, corrupção, em prevaricação, ninguém fala em acabar ou fechar o Congresso Nacional?"

TORCIDA ÚNICA - Os jogos com apenas uma torcida já são adotados na Argentina desde meados de 2013. O "Superclássico", como é chamado o confronto secular entre River Plate e Boca Juniors, por exemplo, é visto no estádio somente pela torcida da casa. A medida melhorou a renda dos clubes - afinal, sempre lota -, mas não diminuiu os atos de violência entre torcedores, que se enfrentam nas ruas.

Repetir a proibição em São Paulo não deve ter resultados práticos, avalia.

"Atualmente, mais de 80% dos conflitos entre torcidas, agressões e mortes comprovadas acontecem fora do estádio, em áreas próximas e também em áreas bem distantes", aponta Murad. Ele lembra que a morte de José Sinval aconteceu a mais de 30 quilômetros do estádio do Pacaembu, local do clássico do último domingo, pelo Campeonato Paulista.

Há ainda o fato de que a violência no futebol não se restringe à capital paulista ou outros grandes centros, além de não se resumir aos grandes clássicos. Das cinco mortes ligadas ao futebol este ano, duas foram no Ceará, uma no Rio Grande do Norte e uma no Rio de Janeiro, além do caso paulista.

Para evitar confrontos como o do domingo passado, o sociólogo defende o monitoramento prévio das torcidas. "A lei autoriza o monitoramento telefônico, eletrônico e postal. Você não pode fazer isso ao arrepio da lei, mas qual juiz não vai autorizar?", questiona.

Mais uma vez, porém, Murad bate na tecla da impunidade. "O problema é a aplicação da lei. O problema não é ter autorização do juiz, é o que se faz com isso", declara.

Segundo ele, além de evitar tragédias, medidas como essa também tem um resultado econômico. "Fizemos um ensaio na universidade e vimos que medidas de prevenção são mais baratas e eficientes do que a repressão", afirma. "A repressão é necessária porque estamos lidando com delinquentes, mas isso não é suficiente."