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Após pulverizar recorde nos 10 mil metros, atleta etíope vira 'xodó' da torcida

(Foto: Por Dentro da África) - Atleta etíope vira 'xodó' da torcida
(Foto: Por Dentro da África)

A corredora Almaz Ayana mostrou na última sexta-feira que os mais de 10 mil quilômetros que separam Etiópia e o Brasil não são quase nada diante da proximidade afetiva que existe entre os dois povos. Depois de conquistar a primeira medalha de ouro do atletismo do Rio-2016 com o tempo espetacular de 29min17s45 nos 10 mil metros, 14s a menos que a marca anterior, a etíope revelou que a torcida brasileira deu grande empurrão no Engenhão. E disse que enfrenta os mesmos problemas estruturais do atletismo brasileiro. Foi um recorde compartilhado com brasileiros.

“Eu agradeço muito aos torcedores brasileiros pelo apoio. Agradeço também aos etíopes. Eles foram muito importantes”, afirmou. “Chegar a esse ponto é um sonho que se torna realidade. Eu nunca pensei que isso iria acontecer. Estou muito feliz por chegar aqui”, disse.

Havia sinceridade nas palavras da corredora de 24 anos. Não parecia que ela estava sendo só cordial. Ou marqueteira. Ela estabeleceu uma conexão com os brasileiros ao relatar suas dificuldades até o ouro. “Na Etiópia, nós precisamos persistir, não desistir. Temos pouco apoio dos clubes, a situação financeira das famílias é difícil. É duro se manter apenas do atletismo. São os mesmos problemas dos brasileiros.”

As arquibancadas ajudaram a pulverizar o recorde anterior - de 29min31s78, da chinesa Junxia Wang, em 1993 -, quando a prova já estava decidida. Ayana assumiu a liderança na metade da corrida e saiu em disparada. Na toada do Engenhão. A prova teve um nível tão forte que até a quarta colocada, a queniana Alice Aprot Nawowuna, bateu o recorde olímpico. A prata ficou com a queniana Vivian Jepkemoi Cheruiyot e o bronze com outra etíope, Tirunesh Dibaba, campeã em Londres-2012.

A vantagem foi tanta que Ayana teve de desviar das competidoras no fim. Tatiele de Carvalho terminou apenas em 31.º lugar. Ainda assim, se diz orgulhosa. “Posso dizer para meus filhos e netos: ‘Eu estava lá’. Feito histórico. Pode contemplar esse recorde. Meu recorde foi participar dos Jogos no Brasil”, disse. “Minha meta era ficar entre as 10, mas quando no quilômetro 5 eu tomei volta eu pensei que ou estava muito mal ou elas estavam bem. Elas estavam muito bem. Tomei voltas, mas não saio triste”, comentou a única representante do Brasil na prova.

No fim da corrida, ao lado da compatriota Tirunesh Dibaba, Ayana “vestiu” uma bandeira do país e deu a volta olímpica. Quando desceu para a parte inferior do estádio, ela ainda estava enrolada em seu manto sagrado. Fez o ziguezague obrigatório entre jornalistas do mundo todo em silêncio e só parou para falar com um profissional que já a conhecia. Deu dois minutos de entrevista comemorados pelo correspondente.

DÚVIDA - Em uma Olimpíada marcada pela eliminação da Rússia no escândalo de doping, surgiram vozes para duvidar da lisura da etíope. Uma de suas adversárias, a sueca Sarah Lahti, questionou o resultado. “Você não vê expressão facial no rosto dela, ela apenas corre enquanto nós estamos lutando por nossas vidas. Não posso dizer que ela não é limpa, mas há dúvida”, disse ao jornal sueco Express.

Questionada por um sueco, a etíope rebateu sem alterar a voz. “Fiz meu treino especificamente para os 5 mil metros. Meu doping é meu treino. Deus é o meu doping. Sou uma cristã limpa”, cravou.

Foi apenas a segunda vez na carreira que Almaz competiu nos 10 mil metros. Sua especialidade são os 5 mil, prova na qual vai competir semana que vem. Foi o seu primeiro resultado expressivo na corrida de longa distância. No Mundial de Pequim, em 2015, ela conquistou o ouro nos 5 mil e, em seu currículo, tem também um bronze de Moscou-2013. “Meu plano era fazer uma boa corrida, eu não pensava em quebrar o recorde, mas felizmente consegui”, afirmou.

Ayana é uma das herdeiras da tradição etíope de grandes corredores. Tirunesh Dibaba, dona do bronze, saudou a nova campeã. “Fico feliz que a família esteja aumentando”, disse a dona do ouro em Pequim.

Para a terceira colocada, o resultado é uma recompensa depois do sacrifício de vir após ser mãe. “Vencer isso (bronze) fez tudo valer a pena. Eu tinha pouco tempo para treinar, porque tinha meu filho.”

Dibaba também usou a palavra heroína para descrever a conterrânea. No primeiro dia de disputa de atletismo, o estádio do Engenhão teve uma heroína de fala mansa e baixa que terminou uma corrida de 10 quilômetros com poucos fios de cabelo soltos em sua trança com infinitos nós.

Na saída da arena que a consagrou, antes de conceder a primeira entrevista para aquele amigo etíope, ela se abaixou por alguns segundos. Quando muitos olharam, prontos para respeitar um momento de oração, deu para perceber que ela estava só afrouxando o cadarço das sapatilhas azuis. Desapertar os sapatos que valeram o ouro foi apenas mais uma felicidade para a campeã olímpica.